TESTEMUNHOS

SEMPRE QUIS SER MÃE!

Por circunstâncias da vida, acabei por ir adiando este sonho, até ao dia em que finalmente decidimos que estava na hora! Mal sabíamos nós, que afinal, nós não temos esse poder!

Nem sempre tudo acontece como gostaríamos, no prazo que estipulamos como certo! Foi o nosso caso!

Depois de alguns anos a tentar sem grande ansiedade, nem pressa, mas com muita vontade, decidimos que estava na hora de ir ao médico! E foi aí, que depois de vários exames, percebemos que afinal, a demora tinha um motivo... infertilidade!!!

O dia em que ouvi este palavrão, o mundo fugiu dos meus pés... foram horas de ansiedade, tristeza e muita insegurança até ao dia em que finalmente fomos à consulta! E aí, percebemos que a esperança existe!

Que não há certezas absolutas, e que afinal, não estamos sós nesta luta!

Perdi a conta às vezes que fui “beber” informação na Associação Portuguesa de Fertilidade! Li testemunhos, procurei respostas, conforto ou apenas sentir-me incluída num novo mundo que afinal não era só meu!

Depois de muitas tentativas, falhadas, momentos de desespero, altos e baixos e muita ansiedade, conseguimos a nossa Victória!

Não foi fácil! Não!

Mas neste processo todo, aprendemos tanto! Vivemos tanto!

Lara Afonso, apresentadora, cantora e youtuber

O meu maior conselho passa pela partilha! Por falarmos com as pessoas que nos querem bem, família, amigos, sobre o que nos vai na alma, sem medos nem preconceitos! Não somos nem mais nem menos por precisarmos de ajuda num processo que se desejaria natural, como se vê nos filmes! Como acontece à maioria das mulheres... não estamos sós! E as vezes os milagres acontecem! E neste Natal, irei ter o meu segundo milagre!

Engravidei, naturalmente, contrariamente às expectativas! Mais um motivo para perceber que de facto nem tudo está nas nossas mãos!

O que nos compete fazer nesta vida é viver o melhor possível, confiar nos nossos sonhos, nos médicos que nos acompanham, não desistir e viver este processo sempre com todo o amor no coração! Afinal, o que nos queremos é na sua essência, um amor para a vida toda!

Para todos os casais que estão a passar por esta luta, desejo do fundo do coração que consigam alcançar a vossa vitória! Que nunca deixem de ser amigos um do outro e que acima de tudo se respeitem sem culpar ninguém!

Não vejam a infertilidade como um bicho de sete cabeças! Não lhe deem essa importância!



NA CASA DA FAMÍLIA VICENTE SÃO FINALMENTE TRÊS

O Fábio teve um tumor na cabeça do fémur (cancro) aos 14 anos. Não fazia a mínima ideia do que se estava a passar e o padrinho dele, que é médico obstetra e especialista em fertilidade, pediu para que adiassem a quimioterapia para poderem fazer a recolha de esperma para congelação, pois futuramente não conseguiria ter filhos sem esta opção, e assim o fizeram, ficaram 6 criotubos na Maternidade Alfredo da Costa.

Quando nos conhecemos jamais pensávamos que um dia teríamos de passar por isto, e quando marcamos na data do nosso casamento deixei de tomar contraceptivos, mas na condição se não acontecesse nada que só iriamos avançar para o médico depois da lua de mel, e assim foi.

Quando regressamos marcamos consulta na minha médica ginecologista, a Dra. Cátia Rodrigues, a qual solicitou uma série de exames a ambos. Quando o Fábio foi fazer o espermograma e quando recebemos os exames começou a confusão, pois não havia resultados. Ligámos para a clínica e informaram que não havia resultados porque não havia mesmo valores nenhuns. Aqui sim começaram as dúvidas e a ansiedade, falámos com a minha ginecologista e explicámos o que se tinha passado. A mesma encaminhou-nos para uma consulta de fertilidade no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

A primeira consulta no Santa Maria e a abertura do processo, foi tudo muito estranho, intenso e emotivo, pois viemos de lá a saber que iria ser um processo muito demorado, havia uma lista de espera de pelo menos um ano à nossa frente para começar o processo de fertilidade. Até lá eu tinha de fazer vários exames para saber se estava tudo dentro da normalidade para iniciar o tratamento e também era preciso fazer a transferência dos criotubos da Maternidade Alfredo da Costa para o Hospital Santa Maria, outro balde de água fria. O Fábio ligou para lá para saber como estava o ponto de situação, pois até aos 18 anos era a mãe dele que assinava os papéis, depois disso teria de ser ele, mas nunca o tinha feito. Ele ligou e disseram que já tinham descongelado o esperma mas que iam ver melhor e voltavam a ligar. Aquela espera foi horrível, mas felizmente tivemos sorte porque estavam no contentor 2 e tinham apenas descongelado até ao fim de contentor 1. Graças a Deus estavam guardados! Marcamos o transporte e nós mesmos fizemos o transporte dos criotubos. Foi um dia muito emocionante!



Após a primeira consulta em Agosto de 2012, depois dos exames todos feitos, fomos chamados em finais de Julho de 2013 para iniciarmos o 1º tratamento, tratamento esse que foi cancelado após 15 dias, pois o meu organismo respondia mal à medicação e fazia quistos nos ovários que não deixava crescer os óvulos. Depois desta situação tive de esperar que a menstruação viesse naturalmente e esperar que marcassem novo início de tratamento, o qual foi marcado em Março de 2013. Começámos, fizemos o processo FIV todo, descongelaram 1 criotubo e fizeram a punção dos meus óvulos, para fazerem o processo em laboratório. Disseram que se não ligassem teríamos de ir ao hospital fazer a colocação dos embriões no útero no dia seguinte e estava tudo bem ou se ligassem até as 08:30 é porque, mais uma vez, algo não tinha corrido bem e foi então que tudo desabou… ligaram às 08:28 e não tinha havido fecundação, por isso teríamos de voltar a fazer tudo de novo porque desta vez não tinha resultado. Ficámos muito mal psicologicamente, não sabíamos o que fazer, ponderávamos ir para o privado, porque agora teríamos de esperar mais 6 meses para iniciar novo tratamento e nada nos garantia que corresse bem.

Bárbara Vicente, associada



Andávamos perdidos, até que fomos falar com o padrinho do Fábio que nos disse que estávamos super-bem acompanhados e não iria adiantar nada ir para o privado. Teríamos mesmo de fazer novamente outro ciclo e tínhamos de ter paciência, que tudo estava bem encaminhado. Até que no dia 16 de Setembro lá fomos nós dar início a mais um ciclo de tratamento, mas desta vez para não correr mais riscos, fizemos um medicamento novo na altura, experimental (Elonva). Tudo feito, desta vez houve fecundação e houve o transporte para o meu útero. Duas semanas mais tarde, análises e a melhor notícia das nossas vidas, íamos ter um bebé! A partir daí foi o realizar de um sonho, um milagre. Na consulta foi confirmado que era só um bebé, estava bem e saudável, tudo correu perfeitamente bem, mas ainda assim ele quis nascer mais cedo, nasceu de 33 semanas, mas tudo estava bem. Cresceu cá fora e hoje é um menino com 3 anos, saudável e lindo.

Com o nosso testemunho só queremos incentivar outros casais a nunca desistirem do vosso sonho, perguntem, informem-se, corram atrás, foi o que fizemos, sabemos que apesar de andarmos sempre preocupados com a situação também tivemos a sorte de encontrar uma excelente equipa médica no HSM e o padrinho do Fábio que foi, sem duvida nenhuma, uma mais valia, pois sempre que vínhamos de uma consulta, sempre que tínhamos uma duvida ligávamos, íamos ter com ele e estava sempre lá.

Adorávamos ter um segundo filho, dar um irmão ou irmã ao nosso Lourenço, mas sabemos que infelizmente no público já não podemos fazer, pois dão prioridade a casais sem filhos, o que achamos bem. No entanto, o nosso caso foi um problema de saúde e não temos outra forma de ter senão passando por tratamento FIV e recorrer a um privado é muito caro, não temos capacidade para isso, e a minha idade já começa a ser um problema… O que tiver de ser será, já termos o nosso menino é uma sorte, um milagre…

PLANO B - UMA VIDA SEM FILHOS

O meu nome é Sara Serrão, tenho 44 anos e a minha vida não foi como eu a imaginei. Quando era mais nova sonhava encontrar o amor de uma vida e constituir uma família num enquadramento saudável e feliz. A verdade é que, depois de um longo namoro entre os 20 e os 30 anos, que acabou por terminar, só voltei a encontrar uma relação estável e gratificante já tarde na vida.

Quando quis engravidar tive que recorrer a tratamentos de procriação medicamente assistida, que fiz, com poucas certezas, mas muitas esperanças, em 2015 e 2016. Depois de três tentativas sem sucesso, com o meu sistema imunitário numa lástima, com o meu estado emocional feito em pedaços e sem probabilidades de engravidar com os meus óvulos devido ao seu envelhecimento natural, não me senti confortável para explorar a possibilidade de recorrer a doação de ovócitos e não voltei a entrar na clínica. Não posso dizer que tenha encerrado este grande tema de vida, mas desde então tenho vindo a fazer uma longa “caminhada”: por um lado, o luto de um sonho que “era suposto” ter-se cumprido, por outro lado, a aceitação de todo o processo. Às vezes tropeço, mas sei que a direcção é sempre em frente e não estou disposta a hipotecar o meu presente e o meu futuro pelo que devia ter sido e não foi.

No início de 2019, um artigo no semanário Expresso sobre as dificuldades de tentar ter filhos depois dos 40 chamou-me a atenção pelo pragmatismo com que abordava o tema, mas desiludiu-me por retratar um caso de sucesso e, como sempre, nenhum de insucesso.

Há muito tempo que sentia que não existe qualquer narrativa na sociedade portuguesa sobre as pessoas que de facto não conseguem ter filhos, pelas mais variadas circunstâncias: para além de razões de saúde e de insucesso nos tratamentos de procriação medicamente assistida, existem também motivos de ordem financeira ou mesmo social - aliás, a dificuldade em encontrar parceiro estável para um projecto de família é tão incontornável hoje em dia que nos países anglófonos já leva o nome de “social infertility”. Neste contexto, contactei a autora do artigo para chamar a atenção para o facto de esta realidade não estar minimamente representada nos media e esse contacto acabou por dar origem a um testemunho na primeira pessoa no jornal Expresso, que foi, passado pouco tempo, tema do programa “O Amor É”, de Inês Menezes e Júlio Machado Vaz, na Antena 1, e de um trabalho do portal Sapo, com as opiniões de uma psicóloga e um médico especialista em infertilidade.


A ideia por detrás destas iniciativas foi não só dar voz e cara a uma situação que existe e que tem permanecido invisível, mas também tentar gerar um movimento de partilha, até aqui inexistente, entre pessoas que quiseram ter filhos e não o conseguiram. O facto de eu própria ter procurado este apoio e de o ter encontrado apenas noutros países, e o facto de ter sido contactada por pessoas com percursos parecidos, que se sentem isoladas, desvalorizadas e invisíveis na sociedade, vieram confirmar a importância de chegar a outras mulheres e homens em idêntica situação. E isso deu-me confiança para lançar recentemente um grupo online de suporte, com o apoio de duas psicólogas. O Plano B - assim se chama o grupo fechado no Facebook - acolhe qualquer pessoa que enfrente a situação de ter querido e planeado ter filhos, sem o ter conseguido, seja qual for a razão.

No arranque do grupo, as três premissas essenciais foram, por um lado, a criação de um ambiente seguro para partilha de emoções, nem sempre positivas, ajudando a minimizar a sensação de isolamento, incompreensão e falta de enquadramento numa sociedade naturalmente focada na descendência e na parentalidade. Por outro lado, tentar cultivar um espírito de “copo meio cheio” em vez de “meio vazio”, valorizando o que se tem em vez do que não se tem. E, por fim, tentar assegurar a continuidade deste “espaço”, pois acredito que a sua existência pode funcionar um pouco como um “seguro” numa condição que se torna crónica: até podemos aprender a viver bem sem filhos, aproveitando outros aspectos da vida, mas o caminho é incerto e ficará sempre um vazio indelével, ao mesmo tempo que haverá momentos difíceis ao longo dos anos. Poder falar disso é uma questão de saúde emocional, mental e física, conforme se conclui pelos testemunhos de outros membros do grupo:

Inês, 42 anos, Sintra
“Tentei pela primeira vez ser mãe aos 35 anos. Muitas consultas, tratamentos, lágrimas, raiva, dor e desilusão depois, 7 anos passados, sei que tenho menopausa precoce. São 7 anos de perguntas, quase sempre para mim e quase sempre ‘porquê, porquê comigo?’. Não conheço pessoalmente alguém que seja infértil. Sempre me senti sozinha, a única pessoa a ser assim. Lia avidamente as reportagens em que uma cara conhecida falava sobre ela (e sobre mim). Neste grupo encontro pessoas a quem não tenho de explicar. Um dos membros do grupo partilhou uma ansiedade que tem sobre a velhice sem filhos e aí senti que finalmente estava no sítio onde não me sinto ‘a única’.”

Paula, 41 anos, Odivelas
“O interesse em integrar este grupo foi a necessidade de conseguir em conjunto com outras pessoas receber apoio e compreensão acerca do sentimento de vazio que se instala ao se tomar consciência que a vida será sem filhos.
A partilha de experiências com o objectivo de ajudar a ultrapassar a dor, baseado na entre ajuda, confidencialidade, confiança, respeito pela história das pessoas que o compõem, não julgando, mas aceitando.
Permitir sentir-me acompanhada e compreendida numa sociedade em que existe uma postura cruel e de total desprezo perante pessoas sem filhos.”

Sofia, 31 anos, Lisboa
“Não estou no ‘Plano B’ por não ter tido filhos – estou porque (muito provavelmente) não os terei. As razões para tal são várias e, juntas, tornam a maternidade, para mim, num sonho praticamente impossível de concretizar. Sendo que desde que me conheço me imagino como mãe, foi bom encontrar este grupo – porque a pouco e pouco o luto terá de ser feito (já está a ser, creio), e é muito diferente passar por esse processo sozinha ou num núcleo em que me entendem e em que as observações despropositadas ficam de fora.
Há uma parte de mim que se vai quebrar para sempre. Uma dor que será para a vida. Porque há em mim uma mãe – que não terá filhos, mas uma mãe.
E no ‘Plano B’ acredito que tudo isto me possa magoar um bocadinho menos.”

Susana, 39 anos, Lisboa
“Sou transplantada renal há quase 14 anos. Há cerca de 5 anos que ando a tentar engravidar e não consegui. O ano passado (2018) foi o "grande ano", o dos tratamentos... mas também foi o chamado ‘annus horribilis’! Fiz duas FIV no Hospital de Santa Maria, que não resultaram. Como sou transplantada, não me aconselharam a fazer o terceiro tratamento, por receio de pôr em causa a saúde do meu rim transplantado! No segundo tratamento até consegui fazer a transferência de um embrião nível A, com grandes probabilidades de ‘colagem’ no útero, mas isso não aconteceu! Fiquei destroçada porque me senti realmente grávida e fiz tudo o que os médicos me disseram para fazer para que a gravidez fosse adiante!
Considero que um grupo de apoio é extremamente importante para este tipo de casos porque por muito que os psicólogos sejam importantes, não há nada como a experiência e a troca de ideias com pessoas que passaram pelo mesmo ou por algo semelhante.”

Perspectiva das psicólogas que apoiam o grupo, Ana de Sousa Martins e Marta Russo:
“A nossa colaboração no grupo Plano B surge do desejo da Sara de dar voz a todos aqueles que se sentem pouco reconhecidos e que de alguma forma procuram ajuda apenas em privado, ou às vezes nenhuma ajuda. Por acreditar que existem Planos B, que podem ser tão ricos quanto os Planos A, participamos enquanto psicólogas clínicas numa perspectiva de impulsionar e apoiar o grupo, de forma consistente e que permita de facto acolher a perda e reelaboração dos projetos de vida que ficam inacabados”.

No fundo sinto que querer ter filhos e não conseguir resulta numa enorme perda. E, como todas as perdas, dá origem a um luto profundo do qual por vezes nem a própria pessoa se apercebe, quanto mais os que estão à sua volta. Afinal, como explicar e compreender este sofrimento por um filho que não se teve? No final, não é fácil aceitar que a nossa vida, na sua questão mais existencial, não vai ser como sonhámos e que vamos mesmo ter que abraçar uma segunda escolha, um plano b, mas não há por que percorrer este caminho sozinho, entre muros de silêncio.

Sara Serrão

(autora escreve sem Acordo Ortográfico)



INFERTILIDADE – A DOR QUE DESTRÓI O CORAÇÃO



Passado alguns anos de uma grande e verdadeira batalha contra a infertilidade, eu e o meu marido resolvemos pedir ajuda aos meios de comunicação social para divulgar a nossa história e, assim, podermos ajudar outros casais e também conseguir alguma luz que nos guiasse neste caminho árduo.

Posso começar por caracterizar a cegonha como um pássaro de grande porte, livre, de grande imprevisibilidade e migrante. Isto tudo quer dizer que nunca estão num lugar certo, nem onde por vezes querem que elas estejam. Eu pensei que seria rápido, que a cegonha iria fazer ninho na minha barriga. Mas afinal deparei-me com uma cegonha sem GPS, pois nunca mais chegava e quando chegou trazia no seu embrulho paciência, tristeza e desilusão.

Um namoro perfeito, realmente vivia num verdadeiro conto de fadas, onde nunca escondi ao meu namorado que tinha o sonho de casar grávida. Nós pensávamos que seria só pensar e a cegonha chegava com o nosso bebé… Mas aí, começámos a ver que realmente o mundo não era assim tão cor-de-rosa.


Em 2012, um ano passado de estarmos juntos, começámos por ir a uma consulta de genética no Hospital de Santa Maria para ser acompanhada, dado ser portadora de Distrofia Miotónica de Steinert(1). Fomos também informados de que não havia precauções que pudéssemos tomar para que o nosso bebé não tivesse a doença e que apenas quando ficasse grávida poderia ser feito o diagnóstico pré-natal através da amniocentese ou da biopsia das vilosidades coriónicas.

Com todos estes processos e de mais alguns exames nem nos demos conta que a infertilidade já tinha entrado nas nossas vidas sem pedir licença, já estava bem acomodada e já fazia parte da família.

Passado dois anos ainda nada tinha acontecido. Exames e mais exames e explicação não havia, mas o que era certo é que a cegonha não chegava, a maldita cegonha não tinha GPS. Até que no dia 20 de janeiro de 2015 chegou a nossa tão esperada cegonha. Ai que felicidade! Mas quando reparamos bem essa cegonha era diferente das outras, só trazia embrulho, lá dentro não existia bebé. Essa cegonha trouxe uma gravidez gemelar anembrionária que nos fez sofrer muito. E desde aí nunca mais tivemos a visita da nossa amiga cegonha.

Passado tudo isso, nesse mesmo ano casámos. O nosso amor tornou-se mais forte e com todas as nossas forças continuámos o nosso caminho. O médico de família encaminhou-nos para o apoio à fertilidade em Castelo Branco. Exames e mais exames e nada tinha explicação, simplesmente não acontecia. Passado um ano de estimulação da ovulação passámos para as inseminações intrauterinas. Mais uma luz se acendeu, fizemos quatro apenas para confirmar que a cegonha tinha mesmo perdido o GP,S pois nunca nos visitou.

Perante toda esta situação sofremos muito, odiámos as palavras “infertilidade inexplicável” porque sem qualquer razão ela roubou o nosso maior sonho. Fomos ao fundo, chorámos, gritámos e mais uma vez ficámos de coração partido. Até que o médico nos chamou para nos informar que o nosso processo iria para Coimbra para que não sofrêssemos mais e pudéssemos fazer Fertilização in Vitro. Ficamos de novo muito felizes, mas com medo da demora da lista se espera. Até tudo correu bem demais e fomos então a consulta a Coimbra a 20 de dezembro de 2018. A doutora pediu mais uns exames e marcou nova consulta para março de 2019. Lá fomos nós todos contentes, cheios de esperança que o nosso processo ia já para reunião terapêutica. Mas mais uma vez a vida nos surpreendeu pela negativa. A médica disse-nos que com a doença genética que tenho, e como pode ser transmitida à descendência com um risco de 50 por cento, deveria era ter sido encaminhada para o Hospital do Porto, o único público no país que faz a escolha dos genes bons para que o nosso bebé não tenha a minha doença genética.

Sem possibilidade de irmos para o particular, o nosso mundo ficou sem chão pois voltámos para o fim de uma lista de espera. Como é possível numa luta de 7 anos que ninguém nos tenha dado essa informação?

Mas no caminho da infertilidade às vezes acontecem coisas boas. A nós, no dia 18 de abril de 2019, saiu-nos o Euromilhões sem jogar. Com a intenção de divulgar a nossa história, também a enviámos para a TVI. Qual não é o nosso espanto quando nos contactam para irmos ao programa “Você na TV” no dia 18 de Abril. Aqui começou um outro problema, porque o meu marido não queria ir à TV, em conjunto com a jornalista Cristiana Esteves conseguimos convencer o meu marido e lá fomos ao programa. E sem dúvida apareceu um anjo no nosso caminho, chamado Dr. Vladimiro Silva. A TVI, mais concretamente o apresentador do programa Manuel Luís Goucha, divulgou a nossa história e conseguiram que a clínica Ferticentro, em Coimbra, ficasse interessada em ajudar-nos a concretizar o nosso sonho. Um casal que vive durante 7 anos, acompanhado da infertilidade, que mais poderia pedir? Nesse dia eu e o meu marido nem acreditávamos no que se estava a passar, tudo parecia surreal.

Agora podemos dizer que, pouco tempo depois, tivemos a nossa primeira consulta na clinica e demos início a todo um processo de apoio a um casal com infertilidade à procura do tratamento mais adequado.

A clínica Ferticentro e os seus profissionais são de excelência e sentimos que todos juntos lutamos pelo mesmo objetivo: “Que a nossa cegonha encontre o GPS.”

Queremos agradecer à TVI, mais propriamente à jornalista Cristiana Esteves, ao apresentador do Você na TV Manuel Luís Goucha, à Ferticentro, em especial a toda a equipa dirigida pela Professora Isabel Torgal e ao Doutor Vladimiro Silva. Um agradecimento especial à Sandra Santos, Diretora de Marketing, pelo apoio e pelas palavras amigas de todos os dias.

Estamos eternamente gratos. Nunca conseguiremos pagar de algum modo todo o apoio, carinho e dedicação que nos tem sido dado por estes excelentes profissionais.

Luzia e Tiago Maia

(1) A Distrofia Miotónica de Steinert é uma doença genética caracterizada pela dificuldade em o portador relaxar os músculos após uma contração. Os músculos mais afetados são os da face, pescoço, mãos, pés e antebraços. As causas estão relacionadas com alterações genéticas presentes no cromossoma 19, sendo que estas podem aumentar de geração para geração, passando da mãe ou do pai para os filhos.