Criopreservação de gâmetas e embriões – a criopreservação de um sonho

Sandra Carvalho*

A criopreservação é uma técnica que permite conservar células por tempo indeterminado, de modo que a que possam ser posteriormente utilizadas. O procedimento de congelação, com o recurso a azoto líquido à temperatura na ordem dos -196°C, e, simultaneamente, à utilização de soluções crioprotetoras que protegem as células contra possíveis danos causados pelo procedimento, permitem preservar as células vivas com o seu metabolismo totalmente suspenso, por longos períodos de tempo.

Nos laboratórios dos Centros de Procriação Medicamente Assistida (PMA) recorre-se, de modo frequente, a esta técnica como complemento às utilizadas nos ciclos de tratamento, permitindo a criopreservação de gâmetas (ovócitos e espermatozoides) e de embriões que, por diversos motivos, não são utilizados a fresco nos ciclos de tratamento. Assim, torna-se possível a sua utilização futura através de técnicas de PMA, para a tentativa de obtenção de uma gravidez. É também a criopreservação de gâmetas que possibilita a existência de bancos de espermatozoides e de ovócitos, aos quais os centros podem recorrer para a realização de tratamentos com gâmetas de dador. 

Criopreservação de gâmetas femininos e masculinos

A criopreservação de gâmetas permite a preservação do potencial reprodutivo que, por diversos fatores, possa estar comprometido. É recomendável e está indicado em determinadas circunstâncias clínicas, como a de jovens com indicação para tratamentos de quimio/radioterapia ou com doenças ou necessidades cirúrgicas que levem ao comprometimento da função ovárica ou espermática. É, também, aplicável a mulheres sem projeto reprodutivo imediato e que apenas consideram concretizar esse projeto em idade reprodutiva mais avançada. O recurso à criopreservação de gâmetas, apesar de por si só não garantir a obtenção de uma gravidez, permite uma reserva de células reprodutoras à qual se poderá recorrer no futuro através de técnicas de PMA.

No decurso dos tratamentos de PMA, os espermatozoides podem ser congelados caso surja uma situação de ausência inadiável do parceiro masculino no dia da inseminação/punção ovárica ou caso exista uma dificuldade crítica na colheita de esperma que possa comprometer a concretização do tratamento. Nestas situações, a criopreservação prévia garante a disponibilidade dos gâmetas no dia do procedimento.

Criopreservação de embriões

Nos ciclos de tratamento de Fertilização in vitro (FIV) ou de Microinjeção Intracitoplasmática de Espermatozoide (ICSI), frequentemente, resulta um número de embriões superior ao necessário para uma transferência a fresco, salvo se for vontade expressa da mulher ou casal a não criopreservação de embriões. Preferencialmente, a transferência deverá ser apenas de um embrião, mas a transferência de dois embriões poderá ser ponderada, tendo em consideração a situação clínica em concreto, a idade da mulher, o número de ciclos anteriormente efetuados e a qualidade dos embriões. Apesar da ocorrência de embriões excedentários não ser um objetivo dos tratamentos de PMA, quando estes existem, podem ser criopreservados para uma utilização futura, permitindo assim efetuar transferências de embriões sem necessidade de um novo ciclo de estimulação ovárica.  Constitui, também, uma solução quando, por razões clínicas, é aconselhado o freeze-all, isto é, a congelação de todos os embriões sem transferência embrionária a fresco. Estes casos surgem como resultado de situações particulares, como por exemplo o risco de desenvolvimento da síndrome de hiperestimulação ovárica (resposta excessiva dos ovários) ou por suspeita de recetividade endometrial inadequada. Independentemente da situação de origem, sempre que resultam embriões excedentários, a criopreservação deverá ser considerada, sendo criopreservados todos os embriões viáveis, isto é, os embriões que apresentam potencial para dar origem a uma gravidez.

Apesar de se tratarem de técnicas muito avançadas na conservação de materiais biológicos e das taxas de sobrevivência obtidas serem bastante satisfatórias, não é de excluir a possibilidade que possa ocorrer uma redução da qualidade do material criopreservado durante o processo de criopreservação. A título de exemplo, pode ser considerada a diminuição da motilidade dos espermatozoides ou ainda a ocorrência de lesões nas estruturas celulares dos ovócitos ou embriões, tornando-os inviáveis. Até à data, a criopreservação não revelou constituir um risco acrescido de anomalias fetais, porém essa possibilidade não poderá ser totalmente excluída.  

Embora ainda com algumas limitações, as quais continuam em estudo a fim de poderem ser ultrapassadas, a criopreservação de material biológico assume-se como uma ferramenta fundamental para o sucesso dos ciclos de tratamento, minimizando o risco da ocorrência de algumas situações indesejáveis, tais como a síndrome de hiperestimulação ovárica e a gravidez múltipla.  Em jeito de conclusão, podemos afirmar que a criopreservação de gâmetas e embriões não é apenas a simples congelação de material biológico, mas antes a congelação de um sonho e a preservação da esperança.

Prazos de criopreservação e destino do material biológico criopreservado

De acordo com a lei atualmente em vigor, os ovócitos e espermatozoides congelados são conservados por um período máximo de 5 anos; no final desse período, e quando justificável, o prazo de criopreservação dos gâmetas pode ser sucessivamente renovado por igual período. Para os embriões, o prazo máximo para a sua conservação é de 3 anos, podendo, também em situações devidamente justificadas, ser alargado até 6 anos. Apenas é reconhecido o direito de utilizar o material biológico criopreservado aos titulares do mesmo. No momento da criopreservação é assinado um consentimento, no qual consta a informação sobre o destino a dar aos gâmetas e/ou aos embriões; findo os respetivos prazos de criopreservação, serão descongelados e eliminados, a menos que os titulares expressem autorização para a sua doação a outras pessoas que delas necessitem para a realização de tratamentos de PMA e/ou  a projetos de investigação científica. É também possível, durante o prazo de criopreservação, revogar a autorização concedida no momento inicial, desde que essa seja a pretensão expressa dos titulares do material biológico.

A transferência de embriões post mortem, tal como a inseminação post mortem com esperma criopreservado, são lícitas para permitir a concretização de um projeto parental já existente antes do falecimento do progenitor, claramente estabelecido e consentido, e decorrido o prazo considerado ajustado à adequada ponderação da decisão.

O transporte/transferência de material criopreservado é permitido entre os centros de PMA autorizados, desde que sejam escrupulosamente cumpridos os procedimentos obrigatórios para o seu transporte e no caso de essa situação ter sido autorizada pelos diretores dos respetivos centros; em determinadas situações, a transferência do material poderá ainda carecer de autorização prévia do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida.  

*Embriologista e diretora do Laboratório do centro Ferticare