Endometriose: qual o papel da Nutrição?

Joana Pereira*

A endometriose é uma patologia ginecológica, caracterizada pela aderência de fragmentos endometriais em locais extrauterinos (predominantemente na cavidade peritoneal e ovário, mas ocasionalmente no diafragma, fígado e parede abdominal). Esta condição ocorre em aproximadamente 10% das mulheres em idade fértil e está presente em cerca de 25-45% das mulheres com infertilidade.

A origem da endometriose ainda não é completamente conhecida e, por isso, é ainda motivo de alguma controvérsia. A menstruação retrógrada através das trompas, fenómeno normal em muitas mulheres, pode facilitar a implantação de tecido do endométrio na zona pélvica, sendo um dos mecanismos aceites para o desenvolvimento da endometriose. Por outro lado, admite-se também a possível influência de fatores genéticos, hormonais (tais como níveis elevados de estrogénios), étnicos (risco mais elevado na mulheres caucasianas), ambientais (substâncias tóxicas, como as dioxinas) ou sociais (stress elevado).

Muitas vezes o diagnóstico surge tardiamente, após queixa de dores durante as relações sexuais, dores pélvicas, dores menstruais fortes ou suspeitas de infertilidade, todas condições que reduzem significativamente a qualidade de vida das mulheres com endometriose. A dieta é um fator de risco para diversas doenças crónicas. O papel da dieta na endometriose tem sido alvo de diversas pesquisas, embora ainda seja necessária mais investigação, sobretudo para se entender os mecanismos por detrás da associação de certos nutrientes com o maior ou menor risco de endometriose.

O desenvolvimento da endometriose é caracterizado por um aumento da ciclooxigenase-2 (COX-2) resultando num excesso de produção de prostaglandinas e aumento da inflamação. Também o stress oxidativo (condição em que ocorre um desequilíbrio entre a produção de espécies reativas de oxigénio – EROs – e a sua remoção ou reparação dos danos às células por elas causados) está presente nesta doença.

Vários nutrientes ou compostos bioativos atuam na redução dos níveis de COX-2, da inflamação e do stress oxidativo:

ÁCIDOS GORDOS

ESSENCIAIS ÓMEGA 3 (EPA/DHA)

Estudos mostram que as mulheres com uma maior ingestão de ómega 3, e consequentes maiores níveis séricos deste ácido gordo, apresentam um menor risco de endometriose. Crê-se que os sintomas de endometriose sejam resultantes de um ambiente excessivamente inflamatório na cavidade peritoneal, pelo que este tipo de gordura, pelo seu efeito anti-inflamatório, protege as mulheres não só do risco de desenvolverem a doença mas também dos seus sintomas. Em animais, a ingestão de EPA/DHA foi associada à redução da progressão da doença, mas esta evidência ainda carece de estudos em humanos.

Alimentos fontes de EPA/DHA são os peixes gordos como a sardinha, cavala e arenque e, a um nível menor e de mais obtenção pelo nosso organismo, na linhaça. Também podemos obter este nutriente através de um suplemento, sendo que este deve ser prescrito sob orientação profissional especializada (médico ou nutricionista), uma vez que a sua escolha adequada depende do cumprimento de certos critérios;

Apesar dos ácidos gordos ómega 3 apresentarem benefícios comprovados, não podemos daí subentender que uma dieta rica em gordura é aconselhada em caso de endometriose. Pelo contrário, a evidência mostra-nos que uma dieta hiperlipídica, sobretudo se esta gordura for saturada (lacticínios gordos, charcutaria, manteiga, consumo excessivo de carnes) ou trans (presente nos produtos industrializados como bolachas, cereais de pequeno almoço, barras de cereais, margarinas e cremes vegetais…) está associada a um aumento da inflamação, do stress oxidativo e do risco de endometriose;

VITAMINA C E E

Diversos estudos mostram que a ingestão destas vitaminas está associada a uma redução dos níveis de marcadores inflamatórios no fluído peritoneal e também de COX-2. Podemos encontrar estes nutrientes nos vegetais, frutas cítricas, salsa, azeite, oleoginosas, ou na forma de suplemento (sempre sob orientação);

VITAMINA A

Ao que parece o consumo de vitamina A tem um impacto na endometriose, visto suprimir a produção de substâncias inflamatórias pelas células endometrióticas humanas. Os alimentos mais ricos em vitamina A são aqueles que, devido ao seu teor de carotenos, apresentam uma cor mais alaranjada ou encarnada: laranja, tomate, morangos, papaia, pimento vermelho, entre outros;

FLAVONÓIDES (QUERCETINA, APIGENINA, CRISINA, RESVERATROL, KAEMPFEROL, GENISTEÍNA)

Reduzem os níveis de COX-2, reduzindo a inflamação. Podemos encontrar os flavonóides nas frutas e vegetais avermelhados e roxos, na cebola, maçã, uva, beringela, beterraba, entre outros.

EPIGALOCATEQUINA GALATO (EGCG)

Estudos in vitro mostram que este composto presente no chá verde tem o poder de diminuir os níveis de antigénio nuclear de proliferação celular (PNCA) e do fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), reduzindo a progressão da doença. Os mesmos resultados ainda terão de ser reproduzidos in vivo.

Além da inflamação e do stress oxidativo, a atividade da aromatase, uma enzima envolvida na elevação dos níveis de estrogénio, também está envolvida no processo de endometriose. Estudos mostram que a utilização de flavonóides e EGCG, já abordados acima, parece ter bons resultados. Além disso, o azeite, rico em hidroxitirosol, possui propriedades anti-estrogénicas e anti-aromatase, uma vez que se liga aos recetores, diminuindo os níveis de estrogénio livre.

Bastante conhecidos pelo seu papel na modulação dos níveis de aromatase e, consequentemente de estrogénios, são os vegetais que fazem parte da família das crucíferas, como o caso dos brócolos, couve-flor, couves, couve-de-bruxelas, entre outros. Diversos estudos, tanto na área da endometriose quanto de alguns cancros onde o estrogénio também constitui uma questão importante (por exemplo cancro da mama e ovário), mostram que o consumo frequente destes vegetais está associado a uma maior capacidade de des-toxificação pelo nosso organismo, com maior eliminação de estrogénios. No entanto, estes vegetais apresentam compostos facilmente fermentáveis pelo nosso intestino, podendo o seu consumo originar distensão abdominal, formação aumentada de gases e aumento da dor abdominal. Dessa forma, e pelo seu elevado interesse terapêutico, a sua inclusão não deve ser negligenciada, mas deve-se garantir que é feita de forma a não causar estes efeitos secundários. Também uma suficiente ingestão de fibras se associa a menores níveis de estrogénio, pelo aumento da capacidade de eliminação.

Ainda dentro da temática dos estrogénios, vários estudos aconselham a redução da exposição a disruptores endócrinos, compostos podem interferir com o nosso equilíbrio hormonal, neste caso de estrogénio. É o caso do bisfenol-A e bisfenol-AF, presentes nos plásticos, e que se associam a um aumento do risco de endometriose e outras doenças a eles associadas.

Desta forma, é sugerida a redução da utilização de plásticos, nomeadamente através de uma menor utilização de recipientes plásticos para armazenamento de comida ou de água, e sobretudo a não exposição dos mesmos ao calor, recomendando-se a substituição destes por recipientes de vidro.

Como visto ao longo deste artigo, o papel da Nutrição na endometriose não é de forma alguma negligenciável, vista a sua grande amplitude de ação. Se sofre desta condição, inclua um nutricionista na sua equipa terapêutica, para que possa de forma integrativa, preventiva ou terapêutica, ter melhor controlo sobre a sua doença.

*Nutricionista na MAE Clinic e autora do site www.nutricionistajoanapereira.pt