Não tinha que ter sofrido até aos 22 anos

Sara

O meu nome é Sara e tenho 24 anos e sempre tive uma ideia muito clara quanto à maternidade. Quando eu e a minha prima fazíamos o típico jogo do “Com que idade te vais casar? Qual vai ser o nome do teu amor? Com que idade queres ser mãe?”, lembro-me vividamente que queria ser mãe aos 22. Na minha cabeça de 6 anos, aos 22 já era muito mais velha e já fazia sentido ser mãe com aquela idade, já tinha de ter casado e ter tido filhos. É claro que depois cresci e essa ideia desvaneceu-se um pouco. Mas sempre quis ser mãe jovem. A ironia é que aos 22 anos ia levar um grande chapadão da vida, mas já lá vamos.

Sempre tive o instinto maternal dentro de mim. Quando a minha irmã mais nova nasceu tinha 5 anos e, na minha inocência, tinha a certeza que iria protegê-la do mundo, como uma mãe faz por um filho. Quando se trata dela, sempre fui como uma leoa a defender a sua cria, mesmo ela sendo “apenas” minha irmã e mesmo tendo uma relação mais que saudável com a nossa mãe.

Brincávamos muito com bonecas. Não só eu e a minha irmã mais nova, mas com a irmã mais velha também. Uma das memórias mais felizes da minha infância envolve-nos às três. A minha irmã mais velha era a pediatra, a minha irmã mais nova era a minha filha mais velha (sendo o meu filho mais novo um dos meus bonecos) e eu era a mãe. Esse boneco é o único que ainda está no meu quarto, na casa da minha mãe. Tem uma cruz na parte de trás, que a pseudo-pediatra da minha irmã fez, quando me deu a fatídica notícia que o meu pseudo-bebé teria de ser operado naquele local com urgência. O drama, meu Deus!

Outra memória que tenho é de ter a minha mala de maternidade com biberões, chupetas, roupa de 300 bonecas e usar os panos de cozinha da minha mãe como fraldas. Lembro-me de quando ia para casa da avó, fazia questão de levar a roupa das 300 bonecas para a lavar no meu tanquinho, enquanto a avó lavava a roupa no tanque dela.

Que saudades de ser criança!

Quando me tornei mulherzinha, sempre tive dores durante a menstruação. Recordo-me de uma vez estar na escola, e estar com tantas dores que estava pálida, e a suar frio e sentei-me no chão, porque era a posição mais confortável em que conseguia estar. Uma professora passou por mim e perguntou-me o que se passava. Tive vergonha de dizer. “É o período, não é?” Apenas acenei que sim com a cabeça. “Oh minha querida, ainda tens tanto que sofrer.”

Hoje sei que não tinha que ter sofrido com as dores até aos meus 22 anos. Não é normal ter dores a ponto de suar frio e sentar-me no chão! Mas eu não sabia disso. Ouvia sempre que era algo normal e que ia ter de aguentar durante um belo tempo.

Dado que sempre fui uma menina tímida, a primeira vez que fui a um ginecologista tinha 22 anos. Sim, é tarde. Muito tarde. Fui porque tinha perdas de sangue. Mas sentia que a minha saúde já não era a mesma há algum tempo. Quando fui ao médico o que me foi dito foi “se não estás grávida isso é preguiça, do calor”. Uma noite estava a dormir bem quando senti algo molhado na minha coxa. Levantei-me assustada e o meu namorado levantou-se comigo e acendeu a luz. Olhei para baixo e vi um fio de sangue a manchar-me o pijama. Fiquei tonta. Ele pegou-me ao colo, e levou-me para a casa de banho. Não fui ao hospital. Fui adiando, pela vergonha que tinha. Fui adiando até o meu namorado dizer que ou eu marcava a consulta ou ele me levava a força.

Resumindo um pouco a história, mais tarde fui diagnosticada com cancro de ovário (e também descobri ter endometriose). Um tumor seroso de baixo grau. Raro. Fui operada duas vezes. Na primeira tiraram-me o ovário doente e da segunda fui aconselhada a tirar o ovário esquerdo e o útero, sem hipótese de preservação de fertilidade. O meu mundo caiu. Não ia ser uma mulher inteira. Não havia razão para alguém querer ficar comigo o resto da vida, porque eu não ia poder gerar. Procurei por todo o lado, pedi opiniões internacionais até, mas a resposta era sempre a mesma.

Nessa altura ouvia comentários como: “Eu também tirei e estou viva”, “Adotas uma criança, não é o fim do mundo”. Era o fim do meu mundo, do meu sonho, do nosso sonho. Meu e do Fábio. No dia antes de aceitar a cirurgia, tive uma conversa muito séria com ele, sobre o nosso futuro. E ele nunca me largou, mesmo que eu lhe tivesse dito para o fazer. Agora sei que o que importava naquele momento era a minha vida e a minha saúde. Mas tenho a certeza que todas as mulheres que lutam ou já lutaram contra a infertilidade me entendem.

Fui operada a 8 de setembro de 2020, para retirada do útero e do ovário e de todos os órgãos que tivessem algum vestígio de doença. Na biópsia, para além do cancro, vinha escrito: “focos de endometriose”. Afinal as dores tinham razão de existir. Não era normal. Quando acordei da cirurgia, não comecei a chorar, não me senti mal. O choro só veio uns dias depois, quando via bebés, crianças, grávidas…

Ainda hoje reconheço a dificuldade que é saber que fulanos vão ser pais, que é segurar um bebé no meu colo. Até aqui, só consegui segurar dois. É um misto de felicidade e emoção com tristeza e dor porque engravidar é algo que nunca poderei fazer. Muitas vezes choro porque me sinto culpada por não sentir só felicidade, mas hei-de lá chegar.

Aprendi que tudo isto não significa que não vou ser mãe. Não é de um dia para o outro que conseguimos perceber isso. É fruto de muito trabalho, muita terapia, muito apoio dos meus… Que se eduque as meninas de que ter dores menstruais não é normal e que ser mãe é muito mais que engravidar, que nunca nos esqueçamos disso!