No caminho para conquistar a família sonhada

Eunice Lucas

A infertilidade entrou para a nossa família em 2017. Bateu à porta sem avisar e entrou sem pedir. Queríamos uma família grande e começámos a tentar engravidar no final de 2016.

Depois de um ano a tentar engravidar fomos encaminhados pela médica de família para a consulta de fertilidade do Serviço Nacional de Saúde. Esta foi a nossa rampa de lançamento neste mundo à parte que se revelou ser a infertilidade. Ninguém espera ter de lidar com a infertilidade, muito menos ser privado de algo tão natural como ter filhos.

Estando já na lista de espera do Serviço Nacional de Saúde, engravidámos de forma natural, sem tratamento. Não é possível descrever a alegria e a emoção do momento em que ouvimos o batimento cardíaco pela primeira vez, foi o melhor som do mundo. Mas a alegria durou pouco, na ecografia das doze semanas o batimento cardíaco que nos fazia sorrir de uma forma única deixou de se ouvir. Naquele momento o som mais prazeroso do mundo deu lugar a um silêncio impossível de descrever. Soube naquele momento, no início daquele silêncio interminável, que a nossa família continuava a ter dois elementos. Foi um momento muito difícil, mas passados uns dias já estávamos no consultório da nossa médica para receber novas orientações. Fomos informados de que para podermos voltar a ter acesso à lista de espera do Serviço Nacional de Saúde teríamos que passar por aquela situação mais duas vezes, só aí seríamos novamente “realmente inférteis” aos olhos do Serviço Nacional de Saúde.

Decidimos que íamos seguir o nosso caminho recorrendo a serviços de saúde privados. Aqui abriram-se as portas para um mundo novo. Tínhamos de escolher uma clínica e isso passava por pesquisar o que existia e conseguir referências das equipas médicas. Contactámos com algumas clínicas muito conhecidas, mas não surgia empatia. Eu particularmente sentia que seríamos só mais um casal, só mais um número para a estatística e isso não me preenchia. Sempre acreditámos em duas coisas que nos sustentaram ao longo de todo o processo. A primeira é que nós já eramos muito felizes a dois e por isso muito mais preparados para tudo o que pudéssemos ter de enfrentar. A segunda é que queríamos sentir confiança na equipa com quem fôssemos trabalhar. Depois de alguma pesquisa e de conhecer o exemplo de uma amiga, optámos por uma clínica em Barcelona, a Dexeus. É uma clínica reconhecida a nível mundial pelo trabalho de investigação que desenvolve, principalmente na área da fertilidade. Tivemos a sorte de ter como médico responsável pelo nosso caso um dos fundadores da clínica, um médico com uma experiência muito ampla nesta área.

Foram-nos pedidos vários exames, que fomos fazendo em Portugal antes de irmos a Barcelona pela primeira vez. Fomos aconselhados a fazer uma fertilização in-vitro e foi o que fizemos. Não sabíamos o que esperar. Não conhecíamos os procedimentos, mas sabíamos o que queríamos e que estávamos dispostos a tudo o que nos fosse possível. Sempre estivemos envolvidos na mesma medida e para nós esta era a única forma de avançar. Uma enfermeira explicou ao Luís como administrar a medicação e foi sempre ele que o fez daí para a frente. Estas partilhas são essenciais para que seja um processo realmente a dois.

Tivemos episódios muito especiais ao longo do nosso percurso de infertilidade. Recordo hoje com nostalgia o momento em que o Luís teve de me administrar a medicação no aeroporto e demos por nós a tentar adivinhar o que estariam as pessoas a pensar ao ver-nos naquela situação. Durante os tratamentos chegámos a ficar várias semanas fechados num quarto de hotel. Nestes momentos a cumplicidade torna-se num dos nossos maiores tesouros. Caso contrário todo o processo seria muito mais difícil.

Somos muito práticos e ponderados e creio que isso nos tem facilitado todo este caminho. Nunca pensámos em desistir, mas sempre tivemos os pés no chão, sabendo que as vitórias são consideradas a cada fase do tratamento. Desta forma estamos mais preparados para tudo o que possa acontecer. A infertilidade faz parte da nossa família há cinco anos. Sempre preferi olhar para cada tratamento como mais uma possibilidade de sabermos o que nos impedia de engravidar, pois assim que soubéssemos com o que estávamos a lidar poderíamos agir de forma mais realista. Foi por este motivo que nunca senti que estava tudo perdido no final de cada tratamento, todos nos deram algo.

Hoje sabemos que a idade dos meus ovócitos não corresponde à minha idade real, e que é isso que dificulta o processo natural. Também dificulta o processo médico, por ser difícil encontrar os óvulos de maior qualidade.

Conseguimos o nosso primeiro teste positivo na terceira fertilização in vitro. Como por vezes acontece, foi precisamente no tratamento em que tudo parecia estar a correr mal. Em plena pandemia de covid e sem voos na Europa, decidimos fazer a viagem de carro no dia em que as fronteiras terrestres abriram. Atravessámos Espanha num carro sem ar condicionado, com 42 graus lá fora e com uma bolsa de medicação que tínhamos de manter fresca, substituindo o gelo várias vezes ao longo do percurso. Gelo que não era fácil de encontrar, com as lojas encerradas devido à pandemia. Uma das dificuldades maiores nos tratamentos de fertilidade são os efeitos secundários, físicos e psicológicos, das doses massivas de hormonas a que somos sujeitas. Digamos que não foi uma viagem fácil… Mas hoje temos uma história especial para partilhar com a Sofia, a nossa filha de 18 meses, que foi o resultado desse tratamento.

A dificuldade em engravidar não diminuiu a nossa vontade de ter uma família grande. Logo que nos foi possível, partimos em busca de uma segunda gravidez. A quarta tentativa voltou a não correr bem e estamos neste momento a meio do nosso quinto tratamento.

Lidar com as expectativas e as esperas é talvez o maior desafio psicológico. Esse e o desafio financeiro de pagar tudo do nosso bolso são possivelmente os dois maiores entraves ao sucesso de quem se vê forçado a enfrentar a infertilidade.

Quando nos dizem que admiram a nossa coragem e dedicação, agradeço, claro, mas sinto-me grata por podermos continuar a tentar. Coragem têm os que não podem tentar ou os que já esgotaram todas as suas possibilidades sem conseguirem um resultado positivo.

Tento sempre encontrar um lado positivo na dificuldade. Neste caso, é por exemplo a possibilidade de acompanhar uma gravidez desde as primeiras células. Ou o aprender a ser mais paciente e a ver a gravidez como o milagre que realmente é.

Nós nunca nos sentimos menores ou uns patinhos feios. Mas sabemos que a infertilidade ainda está envolta em muitos mitos e preconceitos, que provocam sentimentos de culpa e de vergonha em muitos casais. Desmistificar é um dos trabalhos que importa continuar a fazer.

Temos muito orgulho do nosso percurso e do que conseguimos conquistar com o esforço com que enfrentámos as nossas circunstâncias. Há momentos que farão para sempre parte da nossa intimidade e privacidade, mas são momentos especiais, guardados com todo o carinho por nós. Preferimos contar uma história de persistência e de superação aos nossos filhos do que partilhar um conjunto de lamentos e de queixumes. Não é de todo um caminho leve, mas acredito que depende muito da forma como olhamos para o que temos de enfrentar.

Ainda estamos no início do nosso caminho para conquistarmos a família com que sonhámos. Mas é claro que o caminho agora a três é mais colorido.

Criei o canal de Youtube Conversas em Família onde vou partilhando os tratamentos, momentos do crescimento da Sofia e temas relacionados com a infertilidade. Espero conseguir chegar a mais famílias com o objetivo de informar, acompanhar e dar esperança a quem se encontra no mesmo percurso, em qualquer fase do trajeto.

Lembro-me de um dia no centro de saúde me dizerem que se calhar já era hora de aceitar que não ia ter filhos. Lembro-me que a minha reação foi sorrir. Não havia o que dizer, aquelas palavras nunca me fizeram sentido. Por segundos até duvidei que me fossem dirigidas a mim.

Se puderem, não desistam. Não existe sucesso sem dedicação. E aqueles dois risquinhos podem estar à distância da próxima tentativa.