No caminho para uma nova forma de amar

Clara Riso

A minha história é a de um plano de maternidade independente, ou seja, a tentativa de ter uma filha ou um filho sozinha, sem um companheiro ou companheira, com recurso a dador anónimo.

Chamo-me Clara Riso, tenho 44 anos, sou diretora da Casa Fernando Pessoa, museu de literatura situado em Lisboa. Estou há três anos e meio a fazer tratamentos para engravidar. Até agora, sem sucesso. 

Quando, em meados de 2022, recebi a notícia de que mais uma vez os tratamentos tinham fracassado, fiquei num estado de grande desconcerto. Não sabia o que fazer para sair do lugar profundamente triste para onde me tinha levado o desgaste físico e psíquico que estes processos provocam sempre. Não tinha coragem para voltar a tentar e não tinha coragem para desistir. Sentia-me sozinha, mesmo quando não estava. Acordava diariamente com uma voz interior cruel que me dizia que eu era “velha e ridícula” por ter achado que a maternidade ainda podia estar ao meu alcance. 

Com o tempo, essa voz calou-se e hoje sinto-me muito mais pacificada. Esta é uma das partes boas da minha história: os piores momentos ficaram para trás. Mas há mais.

Tenho um plano de maternidade independente. Mas é um plano de maternidade independente muito bem acompanhado. Tenho um problema de infertilidade. Mas a infertilidade não me impediu de ter família.

Não desejei ter filhos cedo. Sempre achei que os teria, mas avancei pelos 30 anos sem decidir formar família biológica. Aos 27 “ganhei” dois “filhos” alemães, com 8 e 9 anos, um rapaz e uma rapariga. Hoje têm 24 e 25, e a minha enteada tem uma filha com quase 3 anos que me chama “avó”. Mesmo depois de me separar do pai deles, mantive com os meus enteados uma relação muito próxima e cheia de afeto – provando que ser madrasta pode ser um laço de parentesco maravilhoso, ao contrário do que conta a tradição. 

Pensei que ia encontrar uma pessoa e que iria a tempo. Mas não foi assim: cheguei aos 40 anos, essa pessoa não surgira, e então decidi avançar sozinha, depois de resolver as questões éticas que a maternidade independente me causava nos primeiros tempos. Posso fazer isto? É justo para a futura criança? Entendi que sim, que seria uma família menos convencional, seria a minha família, e eu tinha esse amor para dar.

Quase ao mesmo tempo que tomei esta decisão, conheci o meu companheiro. Tem um filho, agora com 11 anos, e decididamente não quer ter mais. Desde o início, essas cartas estavam na mesa: eu queria ter filhos, ele não. Com o passar do tempo e com os meus fracassos sucessivos, o que inicialmente era racionalmente compreensível passou a ser um desencontro grave e fundo na nossa vida de casal. Não foi nada fácil, mas conseguimos aceitar que, afinal, esse desencontro não correspondia a falta de amor, e que valia a pena cuidar dessa tristeza para podermos ficar juntos.

Hoje, estamos numa das melhores fases do nosso namoro. Com o meu enteado, a relação já é de confiança e carinho: temos as nossas rotinas, boas memórias de férias e conversas alegres ao jantar.

Por outro lado, a minha enteada e a minha neta (e o meu genro) mudaram-se para Lisboa, escolheram Portugal como país de acolhimento, e vemo-nos com muita frequência.

Assim, não é raro estarmos todos juntos. Acederam com gosto a fazer as fotos que aqui publicamos. Sabem que se destinam à revista da APFertilidade, conhecem bem o meu percurso. O fotógrafo, por sua vez, é o meu companheiro que, desta forma, acaba por também constar na foto. 

Nos piores momentos deste processo, ajudou-me muito ficar em contacto com uma pessoa que tinha tido uma experiência parecida com a minha, e que ia à minha frente no trabalho de recuperação. Para além disso, fui e sou acompanhada por uma psicóloga e, numa fase de maior dificuldade, fui medicada. A minha família, as minhas amigas e amigos e as minhas colegas de trabalho foram um grande apoio, mesmo quando não souberam o que dizer.

Há pouco tempo participei no Programa Baseado no Mindfulness para a Infertilidade, organizado pela APFertilidade, e foi uma experiência muito boa: pude ouvir e falar com outras mulheres que passam por situações semelhantes, percebi que nos podemos treinar mentalmente para acalmar a ansiedade e a cuidar da tristeza.

Decidi tentar novamente. Uma última tentativa, sabendo que as minhas hipóteses não são altas. Acredito que depois, seja qual for o desfecho, sentirei que fiz o meu melhor. Se não resultar, terei novamente de recuperar, lembrar-me de que sou uma madrasta com sorte, rodeada de filhos de outras pessoas que são também meus e com um companheiro que é o certo. Se, por fim, esta tentativa resultar, poderei então juntar mais uma criança ao grupo, ouvir uma pessoa chamar-me “mãe” e experimentar uma nova forma de amar.