O caos perfeito

Raquel e Rui

Começámos a namorar em setembro de 2017 e em junho de 2018 estávamos a enviar um email para o Hospital Santa Maria a pedir uma consulta no serviço de apoio à fertilidade. O facto do Rui já saber que tinha um problema de fertilidade fez com que ponderássemos a decisão de avançar para o tratamento com outra expectativa. Ou seja, não estivemos anos a tentar engravidar até descobrir, em choque, que tínhamos um problema, como acontece muitas vezes. Pensámos, se demora mais ou menos um ano até nos chamarem para iniciar o tratamento de fertilidade, inscrevemo-nos já e vamos descontraidamente desfrutar da vida ao máximo até lá.

Iniciámos então a nossa jornada com o melhor otimismo possível em junho de 2018, quando enviámos o primeiro email para o Hospital, ao qual responderam passado duas a três semanas com o envio de um questionário sobre a nossa história. E, tal como já nos tinham informado sobre o tempo de espera, desde a primeira consulta até ao primeiro ciclo de tratamento decorreu cerca de um ano e meio, durante o qual fizemos todo o tipo de análises e exames que nos pediram. Foi então durante esse tempo que acabámos por descobrir que também a Raquel não tinha um excelente prognóstico, apesar da idade (na altura com 34 anos), pois tinha uma reserva ovárica muito baixa, o que acabou por nos desanimar um pouco.

Com isto, após um ano da primeira consulta, fomos chamados ao hospital para nos dizerem que pela lista de espera ainda iria demorar pelo menos mais 3 meses e por isso, se quiséssemos, poderíamos recorrer ao privado sem custos. E assim fizemos. No dia 31 de dezembro de 2019 tivemos a primeira consulta no IVI e, com a esperança de um Ano Novo com surpresas, iniciámos o nosso tratamento que permitiu a recolha de 5 ovócitos, que resultaram apenas em um embrião, que foi transferido com sucesso. Mas, a 21 de fevereiro de 2020 recebemos o nosso primeiro resultado negativo – a gravidez não avançou. Foi a primeira vez que nos permitimos ir abaixo e pensar que se calhar não seria assim tão “fácil” como o nosso otimismo inicial nos queria fazer acreditar.

Voltámos para as consultas no Hospital de Santa Maria, mas, entretanto, “rebenta” o COVID o que tornou tudo mais lento e ainda mais receoso. Ainda assim, com protocolo de tratamento novo, iniciámos um novo ciclo de injeções e medicação mais forte em agosto. Desta vez, apenas foi possível recolher 3 ovócitos, mas novamente apenas 1 embrião, que foi também transferido com sucesso. “Vai ser desta!” pensámos nós, e na primeira análise ao sangue, efetivamente deu um resultado positivo, apesar de baixinho. Na altura até fomos de férias com alguma esperança, mas, com muita tristeza, soubemos que o resultado da segunda análise tinha diminuído, o que indicava que infelizmente a gravidez não tinha avançado.

Um novo e maior choque com a realidade. “E se nunca conseguíssemos? Deveríamos repensar o nosso futuro? Esquecer o ter filhos biológicos? Tantas crianças no mundo a precisar de pais?”. O mundo não nos prepara para esta realidade… Não fazíamos ideia de quantos casais passam por estas dificuldades. Há medida que íamos partilhando a nossa história com amigos e conhecidos, íamos também recebendo, além de muito apoio, outras histórias de tantas e tantas pessoas à nossa volta que afinal também tinham tido dificuldade em ter filhos. Felizmente a maioria dos casos tinha terminado bem e hoje eram casais com um filho ou mais. Isso deu-nos novamente esperança e força para continuar. Iriamos então avançar para o terceiro e último tratamento (o SNS só permite 3 tentativas por casal) no Hospital de Santa Maria.

Assim, em janeiro de 2021 iniciámos um novo ciclo, com um novo protocolo ainda mais agressivo. “Agora é que é! Ano novo, Vida nova!” Deste novo ciclo resultaram 4 ovócitos, e os 4 fecundaram. Boas notícias, as probabilidades melhoraram, e assim no dia 07 de março de 2021 transferimos os 2 melhores embriões – seriam os nossos campeões! O médico, após a transferência disse “Parabéns! Está grávida! Agora é relaxar!”.

Confessamos que desta vez estávamos mais apreensivos, mas ainda assim permitimo-nos acreditar um bocadinho. O certo é que efetivamente era verdade! Quando fizemos as análises de sangue, deu um valor disparatadamente alto, tanto que a enfermeira disse que por aquele valor eram gémeos de certeza! E ainda não queríamos acreditar… Tínhamos de ver na ecografia com os nossos olhos. E assim foi! Finalmente íamos ser pais e logo a dobrar, e seriam duas lindas meninas!

Pode dizer-se que a gravidez correu com normalidade, com as devidas precauções e acompanhamento que uma gravidez de gémeos deve ter. Assim, a 28 de outubro de 2021 nasceram as nossas duas bebés, a Júlia e a Luísa! Pequeninas, mas saudáveis! Lindas e Nossas! Hoje têm 19 meses e são a nossa maior alegria (e cansaço)! São diferentes entre si em quase tudo e parecidas connosco em tudo! São o nosso caos perfeito!