O nosso coração fora do nosso corpo

Cátia e Rui

Quando começámos a namorar, tinha deixado de tomar a pilula e estava sem menstruar há mais de 27 meses. Nesse momento, já me encontrava a espera de consulta de Fertilidade no Centro Hospitalar de Tâmega e Sousa. Quando nos aproximamos contei logo a minha história ao Rui, não faria sentido se não fosse assim. Quando era adolescente e comecei a menstruar por volta dos 13/14 anos, a minha menstruação nunca foi certa, logo aqui recorri a um ginecologista, que viu que já tinha ovários poliquísticos. Comecei a tomar a pilula para ver se regulava a menstruação e se diminuía os quistos, continuei a ser vigiada, mas mesmo com a pilula nunca consegui ter uma menstruação certa.

Aos 18 anos, numa outra consulta, o médico disse que iria ser bem difícil um dia engravidar, e que, quanto mais tarde quisesse ser mãe, pior seria o cenário. Fiquei muito preocupada e triste, pois desde a minha infância sempre sonhei ser mãe, era o meu objetivo de vida. Somos dois. Mas queríamos aumentar a nossa família e ter mais um membro na nossa casa. Ter o amor das nossas vidas, o nosso coração fora do nosso corpo.  

A partir daí, decidimos fazer análises gerais, que tiveram “resultados normais”. Continuamos com a consulta e resolvemos procurar ajuda no privado. Aqui iniciamos o acompanhamento com indutores de ovulação, pois eu não ovulava, mas sem sucesso, após alguns tratamentos. Em maio de 2019 fiz um drilling aos ovários (limpeza dos quistos). Após este procedimento voltamos aos indutores de ovulação por mais três vezes, sem sucesso. Decidimos fazer inseminação intrauterina. Fizemos três, das quais duas sem sucesso, mas à terceira chegou o nosso tão desejado positivo. A 22 de janeiro de 2020 fiz o teste de gravidez e estava positivo, que dia em grande, que alegria, nós não conseguíamos acreditar e aguentar tanta felicidade. Uma gravidez de alto-risco. Contactei logo o médico, no dia seguinte fomos à consulta e era realidade, o nosso bebé estava ali! Mas eram precisos muitos cuidados e um repouso total. Isso para mim não era um obstáculo, o que eu queria é que tudo estivesse bem, cumpri a regra todas as indicações.

Dia 21 de fevereiro de 2020 tinha consulta de rotina num hospital publico de PMA (Procriação Medicamente Assistida). A médica fez uma consulta normal, ecografia normal, e manda-nos sentar. “Voltam daqui a quinze dias e olhe, vamos ver!”, disse. Eu perguntei, “Mas o que se passa com o meu bebé?”  Ela simplesmente respondeu: “Qual bebé qual quê?! Isso nem um feto era, quanto mais um bebé. Podem sair!” Foram as últimas palavras desta médica. Eu nunca tinha sido atendida por ela, era um médico que me seguia, mas teve uma urgência, então calhou-me ser atendida por esta pessoa.

O nosso Mundo desabou, parou, não sabíamos o que pensar, o que fazer, o porquê de me acontecer? O Rui com muita calma, disse “calma, já vou ligar para o nosso médico” que nos seguia pelo privado e de imediato nos deslocamos a clínica, para verificar o que estava a acontecer. Quando chegamos o médico voltou a fazer ecografia e de facto não existia batimentos, de imediato lamentou e conversou bastante connosco. Encaminhou-nos com uma carta para o Centro Materno-Infantil do Norte (CMIN), para proceder a limpeza com medicação ou sem, por considerar que não faria sentido esperar mais 15 dias. Saímos da consulta e deslocamos-mos para lá. Lá fizemos uma consulta e ecografia, depois voltaram para falar connosco e explicaram que, infelizmente, acontece a um número muito elevado de mulheres/casais.

Depois veio o início da pandemia, conhecida por COVID-19. Tudo deu uma volta de 180°, consultas anuladas, outras adiadas, tratamentos também, mas nós não desistimos.

Um mês depois voltei ao CMIN, para consulta a ver se tinha ficado o útero limpinho, e estava perfeito. Falei com o meu médico ele deu o seu parecer positivo para tomar a medicação de indução de ovulação ainda que não fizesse monitorização. A 4 de Junho de 2020, chegou novamente o nosso positivo, o nosso arco-íris!

Foi um misto de emoções. Foi uma alegria e foi, ao mesmo tempo, um medo, aquela sensação de “E se volta a acontecer e se é igual?”.  E, lá está, eu acho que isto, esta parte da ansiedade, eu bloqueava nas consultas. Acho que esta parte teve muito a ver com o facto de o aborto não ter sido trabalhado, não fiz o meu luto, porque, embora tentasse digerir as coisas e pensar de maneira positiva, há sempre aquele medo que nos assombra e que é maior do que aquilo que nós pensamos.

Foram nove meses de sobressalto, de ansiedade, de instabilidade, de incertezas, a nossa única certeza era querer que tudo desse certo. Não víamos a hora dela nascer, só quando a tivemos nos braços é que ficamos tranquilos. A Maria Miguel é tudo para nós! Nasceu a 3 de fevereiro de 2020, as 9h35 na Casa Saúde da Boavista, com 2.950 kg e 46 cm. Fez este mês dois anos, é um doce de menina, muito meiga, simpática, carinhosa, é uma verdadeira Princesa! É sem dúvida a nossa Princesa.

Após o nascimento da Maria Miguel senti necessidade de desabafar e de ouvir opiniões de outras pessoas e saber histórias de outras pessoas que passam por estas situações, pela perda gestacional e pela situação da infertilidade. Então decidi criar a página Superar e Amar, no Facebook, Instagram e canal de Youtube.

Ali partilho a nossa história, o nosso dia-a-dia, e recebo muitas mensagens de pessoas que passam, ou já passaram pelo mesmo, e que procuram conversar e querem opiniões. Muitas pessoas desabafam comigo e, não me conhecendo presencialmente, até se sentem mais à vontade para falar do que com uma pessoa que conhecem. Acho que deviam ter apoio, porque faz falta, porque eu precisei e sentia falta disso. Na altura até procuramos um psiquiatra, e fui seguida por ele, porque tudo isto mexe connosco e isso reflete-se no nosso futuro. As pessoas não querem que as suas histórias sejam divulgadas, mesmo no anonimato, por causa do julgamento, do tabu, de as pessoas saberem que passam por isto. Devia haver mais divulgação, mais apoios de forma a desmistificar mesmo o tema para deixar de ser um tabu, para as pessoas se sentirem à vontade, para ver que existem tratamentos, para as pessoas estarem informadas.

No futuro, gostava, “acima de tudo, de conseguir chegar a muitas dessas pessoas que passam por estes processos e falar sobre isto e que vejam que, lá no fundo, embora custe e seja um processo longo, existe sempre uma luz ao fundo do túnel, existe sempre uma hipótese, embora seja dolorosa, ou não, umas com mais e outras com menos trabalho, umas com mais e outras com menos tratamentos, independentemente disso, que pensem que têm sempre um apoio e que existe sempre uma oportunidade para cada um.”

O que digo sempre é para nunca desistirem, para tentarem sempre, independentemente de tudo. Eu sei que a nível particular fica muito caro, é verdade, mas, se tiver de fazer um empréstimo para ter uma casa ou ter um filho, eu faria mais depressa para ter um filho, sem sombra de dúvidas. Claro que cada um tem os seus planos de vida, os seus projetos e tem de ver a sua vida financeira, mas nunca desistam e, principalmente quando é um sonho e quando querem muito, acho que devem lutar pelo sonho até conseguir. Nós Conseguimos!