Perguntar e insistir! BASTA!

Ana Ferreira

Pensei muito sobre o que escrever como “testemunho”.

Pensei se queria escrever a minha história, contar passo a passo o que fiz, o que não fiz, a que médicos e clínicas fui e como é que cheguei ao dia de hoje (neste momento grávida de 6 meses).

Pensei também se queria escrever sobre as regras e empecilhos à volta da procriação medicamente assistida. Há muito por onde pegar…

Mas, no final, cheguei à conclusão de que queria escrever sobre aquilo que eu gostava que alguém me tivesse dito, ou que eu tivesse tido a capacidade de ouvir, há 4 anos, quando iniciei o meu processo de maternidade.

Num processo de procriação medicamente assistida, achamos muitas vezes que se formos ao médico certo, à clínica certa, tomarmos a medicação certa, comermos as coisas certas, bebermos água, meditarmos todos os dias, não termos stress, visualizarmos o nosso bebé, não contarmos a pessoas invejosas e muitas outras coisas mais que vamos acreditando por puro desespero, que vamos conseguir ter o nosso bebé. E isso não é verdade. Eu até defenderia que tem o efeito contrário. Passo a explicar: ao nos definirmos como incubadoras perfeitas, mero hardwear cuja única função é gerar vida, estamos a apagar uma parte de nós que essa, sim, é fundamental. A nossa voz.

Não há nada mais importante do que mantermos a nossa voz e, com isso, termos responsabilidade e poder sobre o que está a acontecer à nossa volta e dentro de nós. É fundamental fazermos perguntas, percebemos e decidirmos. Não é por sermos excessivamente agradáveis e não questionarmos muito que vamos engravidar. Um médico é um técnico especializado, não é o guardião que nos dá o nosso bebé se nos portarmos bem.

Muitas vezes senti isso, que se fosse “chata” não me davam o meu bebé. E não há nada mais longe de ser verdade. É fundamental exigirmos das equipas médicas que nos apresentem todos os factos e que nos deixem tomar as decisões que são certas para nós. Não é porque funcionou para 90% das pessoas que funciona para nós e, infelizmente, todas as pessoas que estão num processo de procriação medicamente assistida já se encontram numa minoria percentual, portanto, as percentagens têm um valor relativo. Não há nada mais frustrante do que depois de uma tentativa falhada nos oferecerem um novo teste. O pensamento é sempre o mesmo: “Porque é que eu não fiz este teste antes?”. Por isso, perguntem! Questionem! “Se não funcionar, o que vamos a seguir? E o que é que nos impede de fazer isso agora mesmo?”.

Eu disse no início que não iria falar sobre o que fiz e o que funcionou para mim, mas, na verdade, vou acabar por o fazer. O que funcionou para mim foi ter dito “BASTA!” e ter encontrado a minha voz. Ter deixado de ser (ou de me sentir) um rato de laboratório de experimentação e ter tomado conta do meu processo de maternidade. Ter exigido explicações, testes, tratamentos. Ter cocriado o meu processo com o meu médico em vez de estar à mercê da estatística. E isso trouxe-me o meu Oliver.