Perto de 80% dos pacientes de infertilidade precisa de apoio psicológico

Estima-se que na União Europeia existam 25 milhões de pessoas com problemas de fertilidade e que cerca de 17% da população mundial sofra desta doença. Para estas pessoas receber um diagnóstico, realizar o tratamento e aguardar pelo resultado pode levar a uma onda de emoções que não conseguem lidar sozinhas, tendo necessidade de apoio psicológico para enfrentar o processo. No entanto, a realidade é que esse apoio nem sempre é disponibilizado ou abordado pelos profissionais de saúde e os efeitos na saúde mental destes pacientes pode ser preocupante.

Esta é uma das principais conclusões alcançadas num estudo divulgado, em novembro, pela Fertility Europe, organização que agrupa as associações europeias de fertilidade, e da qual a APFertilidade faz parte. Entre as 2.500 pessoas de vários países, incluindo Portugal, que responderam ao inquérito que integrou o estudo, 71,4% disse nunca ter recebido apoio psicológico por parte dos centros ou clínica de fertilidade, enquanto 60,4% indicou que nenhum profissional de saúde abordou aspetos psicológicos durante o tratamento de fertilidade.

Segundo o relatório, revelado durante a Semana Europeia da Fertilidade, que na última edição se dedicou ao tema “Minds Matter: Capacitar Pacientes de Fertilidade com Apoio Psicológico”, ficou demonstrado que as recomendações feitas em 2015, num guia criado pela Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE) para os profissionais da área da reprodução medicamente assistida, não foram integradas devidamente pelos centros. Por exemplo, 77,8% dos inquiridos admitiu que sentiu a necessidade de receber apoio psicológico, 48,8% que o sentiu nomeadamente durante o tratamento e 77,1% após este não ter sido bem-sucedido, fosse pelo insucesso da técnica, aborto ou falta de gâmetas. Apenas 24,1% manifestou ao centro ou clínica onde foi acompanhado que precisava de ajuda especializada.

A Fertility Europe procurou saber o que impediu o acesso ao apoio e foram encontradas duas razões: falta de psicólogos, psiquiatras ou técnicos de aconselhamento; e custos extras com o pagamento das consultas. Sobre as razões específicas para os pacientes não terem pedido apoio por iniciativa própria, o que confessou 76% dos pacientes, 31,6% respondeu ainda que não sabia onde procurá-lo, 22,4% que esse apoio não estava disponível no centro ou clínica onde foram acompanhados e 22,8% que teriam de pagar as consultas, além dos custos do tratamento.

Conclui o relatório que “é evidente que existe uma elevada procura de apoio psicológico, mas a falta de acessibilidade aos cuidados psicológicos impede os pacientes de beneficiarem deste apoio”. “A lacuna entre as necessidades dos pacientes e o que a clínica oferece é uma questão que os prestadores de cuidados de saúde, as clínicas e as organizações de apoio devem abordar urgentemente se quisermos ajudar os indivíduos e os casais a navegar pelos obstáculos emocionais das suas jornadas de fertilidade, promovendo a esperança e a resiliência ao longo do caminho”, sublinhou a Fertility Europe.

Ainda que existam centros e clínicas de fertilidade com psicólogos nas suas equipas multidisciplinares, os números reunidos pelo estudo europeu revelam insuficiência na capacidade de resposta ou ausência de informação que a ajuda à saúde mental existe. De uma forma resumida, o relatório concluiu que 8 em cada 10 pacientes precisaram de cuidados psicossociais durante o tratamento de fertilidade, mas apenas 2 em cada 10 tiveram acesso a esses cuidados, o que leva a considerar que entre 10% a 20% dos pacientes arriscam sofrer significativamente a nível emocional durante um processo de procriação medicamente assistida, sem que essas dificuldades sejam identificadas ou consideradas para acompanhamento especializado. A organização europeia adiantou que do lado dos profissionais de saúde, apenas 30% assumiram estar aptos para o fazer.

Perante uma realidade em que quase 80% dos pacientes inquiridos sentiram a necessidade de apoio psicológico de profissionais de saúde mental ao longo da sua jornada de infertilidade, a Fertility Europe sublinha a importância de serem reforçadas medidas que contrariem o que ainda acontece atualmente. Para tal é necessário envolver os decisores políticos na criação de legislação que imponha a obrigatoriedade de existir apoio psicológico na luta contra a infertilidade e que, antes e durante os tratamentos, exista abertura dos profissionais para abordar os pacientes quanto às opções que existem para responder às suas fragilidades emocionais. Em relação a estas necessidades e às conclusões do relatório europeu, a presidente da APFertilidade, Cláudia Vieira, considerou ser de “uma importância enorme que este caminho não seja feito de forma solitária e que, além da partilha de sentimentos entre o casal, um ou ambos tenham um dos apoios essenciais para que cada passo seja dado de uma forma cuidada e coordenada por psicólogos especializados”. Em Portugal, a legislação determina que “os centros autorizados a praticar PMA deverão assegurar o apoio de médico especialista em Psiquiatria ou de psicólogo clínico”. Ainda que estes profissionais integrem as equipas no Serviço Nacional de Saúde e no privado, no público o número destes especialistas está longe de responder às necessidades das mulheres e casais que ali são acompanhados e dessa ajuda ser referenciada nas consultas de apoio à fertilidade.