Porque todos os espermatozóides contam…

Marco G. Alves, PhD*

A infertilidade masculina é um problema sério que continua a motivar um intenso debate clínico e também social. Nos dias de hoje ainda existe um certo desconforto na sociedade quando a causa da infertilidade do casal está associada ao homem. Paralelamente, não só há mais informação sobre os problemas da saúde reprodutiva da mulher, como até mais investimento para a investigação das causas da infertilidade feminina. Esta realidade parece fazer algum sentido uma vez que são as mulheres que têm o dom maravilhoso de gerar, alimentar e proteger dentro de si o futuro da espécie. Contudo, importa realçar que em média os problemas de fertilidade do homem são responsáveis por 50% dos casos de infertilidade do casal. Assim, é fundamental trazer para o debate público o tema por forma a desmistificar o tabu associado à infertilidade masculina. Estudos recentes dizem mesmo que 30% dos casos podem dever-se apenas a problemas de fertilidade do homem. Esses problemas podem ser mecânicos, como por exemplo um quadro de disfunção eréctil, mas, na maioria das vezes, são moleculares e bioquímicos.

Há desde logo um mito que importa combater: a ideia de que é preciso apenas um espermatozóide para fazer uma fertilização. Esta convicção até poderia ser inofensiva se não fosse pertinente perguntar: e qualquer espermatozóide serve para gerar o seu filho? Para muita gente a pergunta continua a ser mesmo uma provocação. A resposta é clara: Não! Torna-se cada vez mais evidente a urgência de estudar os mecanismos moleculares responsáveis pelo declínio da qualidade da reprodução masculina. Na Procriação Medicamente Assistida (PMA), concretamente no ambiente de uma fertilização in vitro (após colheita de sémen), é fundamental proteger os espermatozóides selecionados para a garantir a sua máxima viabilidade.

É neste contexto que, após o Doutoramento, decidi dedicar-me ao estudo dos mecanismos moleculares que podem provocar subfertilidade ou mesmo infertilidade nos homens. Para além disso, nos últimos 3 anos, o grupo de trabalho onde estou inserido decidiu apostar na produção de conhecimento com valor acrescentado para a sociedade. Aposta também em retribuir a confiança e o financiamento que tem recebido. Neste enquadramento, após anos de estudos moleculares, fomos capazes de aplicar o conhecimento gerado para melhoraria de meios usados na área da PMA para preparação de sémen. O grupo de investigação conseguiu melhorar os parâmetros de qualidade dos espermatozóides selecionados, sem que estes percam integridade do seu DNA e a capacidade de fertilização. Este conhecimento, permite conseguir, após colheita, melhores espermatozóides para utilização na fertilização in vitro. Todos os casais que procurem tratamento de fertilidade e que recorram a técnicas de PMA poderão, num futuro próximo, beneficiar desta descoberta.

Mas afinal que descoberta é esta? De um modo simples, trata-se de um mecanismo que ativa uma proteína que consegue acelerar o metabolismo, manter a integridade dos espermatozóides e conservar as propriedades necessárias para uma boa fertilização. Neste momento falta realizar alguns testes de biossegurança, muito embora, possamos afirmar, que este indutor metabólico já é utilizado no tratamento de outras doenças. Prevê-se, por isso, que a aprovação da sua utilização de forma abrangente, em PMA, venha a ser simplificada. Na realidade, pretende-se aplicar esta suplementação nos meios comerciais utilizados em fertilização in vitro, para que todos os casais que necessitem de tratamentos de infertilidade tenham, em todas as clínicas e hospitais do mundo, a garantia da qualidade dos espermatozóides selecionados.

Afinal, quando se trata de ter um filho, todos os espermatozóides contam… E é exatamente porque todos os espermatozóides contam que o nosso grupo de trabalho se compromete a continuar a estudar a infertilidade masculina nas vertentes molecular e translacional. Neste momento estamos focados em compreender de que modo é que as doenças metabólicas, como a obesidade e a diabetes tipo 2, afetam a reprodução masculina. Recentemente a Fundação para a Ciência e Tecnologia e a Sociedade Portuguesa de Diabetologia financiaram projetos que lidero, dentro do grupo de trabalho, e que visam dar resposta a uma outra questão relevante: será que a informação genética que o espermatozóide contém responde às doenças metabólicas? E isso transmite-se à descendência? É matéria relevante para debater no futuro. Sim, todos os espermatozóides contam. Se apenas um poderá gerar o seu filho, que seja então o melhor dos espermatozóides.

* Investigador Auxiliar na Unidade Multidisciplinar de Investigação Biomédica, Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, Universidade do Porto