“Precisamos de desmistificar a infertilidade”

Hérika e Fernando

Tivemos de recorrer ao tratamento de reprodução medicamente assistida. O Fernando “herdou” uma doença predominantemente portuguesa chamada Paramiloidose, vulgarmente conhecida como doença dos pezinhos, mas só foi diagnosticado aos 28 anos. Por ter sido necessário recorrer a um tratamento de transplante hepático, adiámos a possibilidade de ter um filho. Mas não só por isso, também por saber que a doença é hereditária e a probabilidade do bebé herdá-la era superior a 70%.

Quando o momento oportuno surgiu recorremos a um renomado médico especialista em reprodução medicamente assistida no Brasil. Foi-nos dada a informação de que, devido à sua patologia ter avançado de forma agressiva, não seria possível ter um filho do meu marido e teríamos de recorrer ao banco de esperma, opção que para mim estava totalmente descartada. O meu sonho não era simplesmente ficar grávida, mas sim constituir uma família com o meu marido e se não fosse para gerar um bebé que também fosse filho dele preferia optar pela adoção. O meu amor não é egoísta.

Deixamos de parte o sonho de constituir uma família e viemos para Portugal em definitivo, pois aqui encontramos todo o acompanhamento necessário para que o Fernando tivesse o mínimo de qualidade de vida.

Numa consulta de acompanhamento do meu marido, uma médica questionou sobre termos um bebé. Relatámos o que nos aconteceu no Brasil e ela sugeriu fazermos uma consulta num centro especializado de reprodução medicamente assistida para pacientes com Paramiloidose, situado no Hospital de São João no Porto. Não tínhamos nada a perder e aceitamos a sugestão, e em 2014 demos entrada no hospital.

Ao longo do processo descobrimos que não tínhamos apenas um problema para engravidar, mas sim quatro limitações: a doença do meu marido, o material genético dele escasso, sendo necessária uma intervenção cirúrgica, a minha idade, e por último o meu organismo que dava uma resposta anormal a produção de hormônios. Tudo isso atrasava/dificultava a implantação do embrião, em cada procedimento perdia-se embriões e o número ficava muito reduzido com chances quase nulas em implantes e gravidez. Mas nós só precisávamos de um embrião para gerar nosso bebé.

E o mais incrível é que em nenhum momento fizera um pré-diagnóstico da situação do Fernando ou disseram que não era possível. Em todo o tempo foram realizando os procedimentos necessários, que era não só a Fertilização In Vitro (FIV), mas também o Diagnóstico Genético Pré-Implantacional (DGPI) para confirmar se o embrião herdaria a doença do pai.

O caminho é árduo e precisamos desmistificar o assunto da infertilidade. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, chega a 80 milhões o número de pessoas afetadas pela doença no mundo. Precisamos usar os meios necessários para dar o nosso apoio a tantas mulheres e casais como nós que passámos quatro anos a lutar pela realização do sonho de termos um filho.

Somos Hérika e Fernando, temos muito orgulho em dizer que após quatro anos de tratamento, e depois de quatro tentativas, numa delas com a perda de gêmeos, tivemos sucesso na quinta, o que resultou na existência da nossa Anjinha Lana.

Se foi possível para nós é também possível para vocês!