Valorização da Endometriose: “Ainda não parece ser aquilo que deveria”

A endometriose faz parte da realidade de 176 milhões de mulheres em todo o mundo, o equivalente a cerca de 10% da população feminina em idade reprodutiva. Sem uma cura ainda estabelecida, não deixam de existir progressos significativos a nível de tratamentos e na atenuação dos sintomas, onde a dor, muitas vezes incapacitante, é um dos principais motivos que impedem as doentes de ter qualidade de vida. Convidámos o coordenador da Unidade de Cirurgia Minimamente Invasiva Ginecológica e Endometriose do Centro Materno-Infantil do Norte, Hélder Ferreira, para responder a algumas questões sobre esta doença, nomeadamente como se manifesta e que respostas médicas existem.

[+Fertilidade] Que sintomas podem indicar a presença de endometriose e a partir de que idade se podem manifestar? Existem sinais a que a mulher deve estar atenta que vão além do expectável na menstruação?
[Hélder Ferreira] Dor intensa durante o período menstrual, por vezes incapacitante e resistente aos analgésicos mais comuns, é um sinal de alerta que pode indicar a presença de endometriose. A doença pode começar a manifestar-se na adolescência, logo durante as primeiras menstruações. Todavia, há casos em que a mulher inicia sintomas numa fase mais avançada da vida, por vezes após os partos. Dor na relação sexual também é um sinal de alerta. Também devemos estar atentos às queixas de dor durante a micção ou defecação associada à menstruação. Mais raramente, há quadros de dor cíclica em localizações não-pélvicas (tórax, abdómen) que coincidem com as menstruações ou ovulações fazendo pensar em endometriose extra-pélvica. Esta patologia já foi identificada em praticamente todos os órgãos da mulher.

[+Fertilidade] Que exames podem confirmar um diagnóstico?
[HF] O exame ginecológico na consulta consiste no primeiro e mais importante estudo para a avaliação e a orientação diagnóstica. Seguidamente, a ecografia pélvica endovaginal assume um papel muito relevante como complemento do exame físico. Adicionalmente, a ressonância magnética pélvica tem uma relevância ímpar no mapeamento e classificação da doença. Finalmente, a laparoscopia é o método gold standard para o diagnóstico, pois permite uma visualização direta dos implantes e manifestações da doença (aderências, nódulos ou quistos). A laparoscopia assume também um papel determinante no tratamento da doença.

[+Fertilidade] Considera que existe sensibilidade e informação ao nível dos cuidados primários, mas também de alguns ginecologistas, para se suspeitar que se pode estar perante a doença? Ainda se desvalorizam as queixas feitas pela mulher?
[HF] Nos últimos anos houve avanços importantes no conhecimento da doença entre os pares, quer a nível dos cuidados de saúde primários quer entre os colegas de especialidade. Todavia, a valorização da doença ainda não parece ser aquilo que deveria ser. Trata-se de uma doença em que o diagnóstico precoce e a prevenção são cruciais para evitar quadros avançados e muito complexos que comprometem a capacidade reprodutiva, a função urinária e intestinal da mulher. A endometriose é uma doença inflamatória, mais frequentemente localizada na pélvis, que causa aderências/cicatrizes entre os intestinos, os ovários, trompas, e o útero.

[+Fertilidade] A endometriose ainda não tem cura, mas é possível atenuar a sintomatologia. Que tratamentos podem ajudar? A nutrição ou exercício físico adequado podem ser considerados bons complementos?
[HF] Começa a haver evidência científica e publicações credíveis que refutam o paradigma de que a endometriose não tem cura. Na verdade, a evolução tecnológica e técnica recentes têm permitido procedimentos cirúrgicos laparoscópicos cada vez mais precisos e eficazes na identificação e remoção da doença. O conhecimento da doença e seu comportamento tem evoluído e possibilitado tratamentos com melhores resultados. A alimentação tem um papel importante pois, sabe-se que a ingestão de alimentos “pró-inflamatórios” como carnes vermelhas e enchidos poderão influenciar negativamente a evolução da doença. O exercício físico pela sua ação benéfica no sistema imunitário traz vantagens para a evolução da doença.

[+Fertilidade] Em que situações a cirurgia é considerada? Existem casos em que devido à complexidade da doença pode não resultar?
[HF] Segundo a literatura científica e a experiência dos maiores centros internacionais no tratamento da endometriose, a laparoscopia cirúrgica associa-se à melhoria da dor em mais de 70% das doentes. A cirurgia está indicada nos casos de dor resistente ao tratamento médico, presença de nódulos ou implantes com atingimento intestinal ou urinário e, também em muitas situações de infertilidade associada. Frequentemente, a distorção anatómica concomitante à doença inflamatória pélvica (endometriose) pode causar retração ou repuxamento das trompas e ovários. A laparoscopia permitindo alise destas aderências associadas, poderá permitir uma gravidez espontânea. Os fatores mais comuns associados à persistência ou recorrência dos sintomas são a presença de adenomiose (associada à endometriose), tratamento cirúrgico incompleto ou, por sensibilização periférica ou central à dor.

[+Fertilidade] Já registou algum caso em que não foi possível ajudar a doente? Havia alguma particularidade?
[HF] Até à data tem sido sempre possível fazer algo em benefício das doentes. Todavia, há sempre casos mais desafiantes que nos fazem continuar a estudar, investigar, auscultar opinião de “experts” internacionais e partilhar as nossas dúvidas e angústias. Por vezes, há situações em que as doentes não aceitam as nossas orientações terapêuticas e desta forma sugerimos procurar outras opções ou opiniões.

[+Fertilidade] A relação entre endometriose e infertilidade existe, mas não é considerada imperativa. Que possibilidades de tratamento elevam as hipóteses de uma gravidez?
[HF] Nos casos de infertilidade associada à endometriose penso que se deverá fazer um estudo exaustivo do aparelho reprodutor para perceber a relação entre ambas. Um exame ginecológico cuidadoso, para avaliar a mobilidade uterina e a presença de massas anexiais, fornecerá informação útil sobre a existência de eventuais aderências pélvicas e de quistos de endometriose ováricos. Adicionalmente, a ecografia e a ressonância magnética pélvicas podem fornecer indicações sobre a potencial relação entre a endometriose e a infertilidade ou, mesmo a existência de outra patologia pélvica concomitante. A realização de uma laparoscopia é muito importante no diagnóstico e tratamento. No entanto, há muitos casos em que a doença já teve um impacto tão importante no aparelho reprodutor da mulher que a orientação para técnicas de reprodução medicamente assistida poderá ser uma opção.

[+Fertilidade] Que conselho deixa às mulheres que recebem a endometriose como diagnóstico?
[HF] Que mantenham a serenidade e procurem a melhor ajuda e orientação pois, como referi, houve avanços importantes no diagnóstico e tratamento da endometriose e já é possível dar uma resposta adequada, na maioria dos casos, a esta doença tão prevalente e complexa.