13 Out. 2026
A importância do suporte emocional na ovodoação
Ana Maria Magina, Psicóloga Clínica e da Saúde e Fundadora da PsicoFértil
Inevitavelmente os casais que atravessam um longo percurso de ciclos de tratamento em Procriação Medicamente Assistida (PMA), quando chegam à consulta de Psicologia, com a recomendação clínica de optarem pela ovodoação, já trazem com eles muito sofrimento psíquico e físico, face ao insucesso recorrente, dos planos de tratamento antecedentes.
Na consulta de Psicologia, procuram maior conforto no acompanhamento psíquico perante o enorme desgaste emocional que os assola, na necessidade que lhes traga apoio, reflexão e tomada de decisão numa abordagem mais imediata.
O apoio psicoemocional deve ser recomendado a todos os casais que recorram à doação de gâmetas, sendo que este deveria ocorrer ao longo de todo o plano de tratamento aos que apresentam baixo prognóstico devido a idade avançada, por exemplo.
Quando lhes é proposto o recurso à ovodoação, os casais muitas vezes querem desistir ao depararem-se com o início de um luto genético que lhes é difícil de aceitar. Nesta altura, o trabalho do psicólogo passa por um maior suporte, encorajamento, escutando e respeitando os tempos de pausa e reflexão, que assistem o casal até decidirem retomar os tratamentos com recurso a óvulos doados.
É necessário que o psicólogo esteja preparado para escutar, entender e ajudar o casal a ressignificar o que pensa, o que sente, reformulando perspectivas sobre o seu projecto parental, tenha esta continuidade ou não.
O psicólogo em PMA: que tipo de trabalho oferece?
Neste caso o psicólogo nem sempre tem um trabalho tão preventivo quanto seria desejável, mas mais ajustado e focado às fases de desenvolvimento do tratamento e diagnóstico que o casal enfrenta.
Proposta do psicólogo: tempo de reflexão/apoiar o casal no seu luto genético
· Entre fases de tratamento ou mesmo na mudança de protocolo clínico, existe aquele tempo em que é possível ir ajudando o casal a trabalhar o luto daquele bebé que nunca chegou.
· Entre períodos de pausa, de reflexão, deve oferecer espaço para a exposição de todas as emoções, medos que o casal legitimamente encontra no que sente, acolhendo a tristeza, raiva e a incerteza que é inversamente proporcional à esperança, numa escuta ativa e individualizada.
· Apoiar o casal, encorajando-o a trabalhar questões mais profundas, como por exemplo crenças limitantes, antes de prosseguirem para um novo protocolo de tratamento, desta vez com recurso à doação de óvulos.
É nesta altura que pode ser mais fortalecida a condução do processo terapêutico, auxiliando a dor emocional. Sabe-se que através da existência de um trabalho desenvolvido e contínuo com o casal, enquadrando as sucessivas falhas de implantação de embriões, perdas gestacionais e o luto, o psicólogo poderá ajudar o casal a ressignificar a sua transição para a aceitação da parentalidade com recurso à ovodoação ou adopção e até mesmo para uma vida sem filhos.
Para além das propostas anteriores, é igualmente importante que o psicólogo ajude o casal a desconstruir resistências, falando abertamente acerca das suas crenças, medos, expectativas, angustias e dúvidas que possuem, e que nem sempre os deixam mobilizar daquele sofrimento psíquico.
Como pode a Epigenética impactar a percepção das mulheres receptoras de óvulos doados?
Levar ao casal a recomendação de reformular perspectivas e literacia não só sobre saúde reprodutiva como sobre a Epigenética, é sem dúvida uma fase de acompanhamento psíquico a ser valorizado na exploração do tema e no esclarecimento sobre o mesmo.
O psicólogo em saúde reprodutiva deve procurar esclarecer os casais de que a Epigenética vai muito mais além daquilo que é genético, transmitindo-lhes que o ambiente numa gestação é sem dúvida o útero de uma mulher.
Epigenética: (“epi” para além da genética)
Na verdade, a Epigenética não se concentra só no fenótipo ou herança genética, mas sim no vínculo emocional que a mãe poderá oferecer ao seu bebé. Concentra-se sobretudo nas trocas oferecidas entre mãe e bebé ao longo de toda a gestação.
A Epigenética possui uma forte responsabilidade sobre tudo aquilo que é veiculado ao bebé (tendo maior incidência no 1º trimestre) durante as fases de desenvolvimento embrionário e mais tarde fetal. Tudo o que ocorrer durante a gestação poderá influenciar directamente a sua formação. Sendo que o desenvolvimento fetal dependerá do metabolismo da mãe (que gera o oxigénio, nutrientes, estilo de vida, parte hormonal e emocional) devemos explicar-lhe que a forma como isso for oferecido durante a gestação irá influenciar a expressão genética do embrião. Assim a mãe terá um papel tão activo como determinante no que e como será o seu bebé.
A função da Epigenética é a de dar um colo/suporte, como que uma nova esperança para todas as mulheres que desejam ser mães, ajudando-as a estabelecer vínculo com o seu bebé ao longo de toda a gestação. Até porque, na maioria dos casos, os casais desejam ver-se espelhados nas características dos filhos. Querem reconhecer a extensão, a sua continuidade e talvez por isso seja tão difícil não criar expectativas acerca da sua personalidade e da sua vida.
A parecença de um bebé com a sua mãe não se resume, nem se define única e exclusivamente através dos genes, mas através de toda a interação que esta vai oferecer e manter com aquele bebé. Por exemplo se pensarmos na mímica facial, a imitação, os valores, a semelhança que é um outro conceito, o comportamento, todos eles são apreendidos.
O segredo familiar
Este tema é de facto uma preocupação levada à consulta de Psicologia pelos casais que recorrem à ovodoação. É sem dúvida uma questão que inquieta muitos dos que querem ser pais e que necessita ser acolhida, debatida, reflectida e aceite por ambos: “Será que devemos contar à criança?”, “Será que devemos guardar só para nós?”, “Se descobrirem o que vão dizer?”, “Com que idade lhe devemos contar?”
Uma vez mais, o importante nesta fase é contemplar a escuta do casal, reestruturando percepções, crenças, distorções cognitivas e assegurar que este se sente compreendido, seguro com a sua tomada de decisão, antes de seguirem para o plano de tratamento. Porém, alguns estudos têm vindo a defender que é mais benéfico contar à criança, do que guardar “este segredo”. Pode ser mais nefasto para a criança a surpresa da descoberta de algo tão importante, que a envolve e lhe diz respeito, e que lhe foi omitido, do que manter em segredo, podendo ter consequentemente um impacto negativo no estabelecimento do vínculo parental e na relação de confiança, que se quebra, entre pais e filho.
Perante a dúvida que se remete a estes pais, entre o contar ou não, sabe-se que não existem diferenças significativas nas crianças e jovens adolescentes, quer a nível cognitivo, emocional ou comportamental, que sabem ou não que a sua origem proveio de material genético doado.
Acredita-se que a idade mais favorável para se falar deste tema rondará os sete anos da criança, visto ser uma fase de desenvolvimento favorável, facilitadora à elaboração da representação social. Quando chegar esta altura, sugiro aos casais que o façam através de um conto ou história infantil, abordando o tema com simplicidade, leveza e verdade.
Por último, creio que é benéfico o casal reflectir sobre todos os modelos familiares com os quais atualmente já convivemos, e no quão futuramente serão ainda em maior número e vivenciados num conceito ainda mais normalizado.
Sugestões para os futuros pais:
· Alertar os casais durante as consultas para que adoptem um comportamento mais assertivo e preventivo, oferecendo maior amplitude, literacia em saúde reprodutiva no diálogo com filhos que vão nascer.
· Dar a conhecer e falar abertamente com a criança sobre a existência de outros modelos de parentalidade e estruturas familiares.
· Desconstruir modelos pré-concebidos de crenças limitantes que reduzam padrões tradicionais de reprodução e maior abertura na procura de ajuda especializada em PMA, sobretudo se no futuro os filhos necessitarem de ajuda em termos reprodutivos.
· Alertar para uma ida ao especialista, avaliando a saúde reprodutiva, abrindo consciencialização na preservação social da sua fertilidade, de forma preventiva.
O psicólogo em saúde reprodutiva propõe-se:
· Ajudar os casais a lidarem com os desafios ao longo do processo de tratamento de forma individualizada.
· Oferecer um espaço de acolhimento, promovendo a escuta activa do desajustamento emocional de cada casal.
· Promover a abertura a questionamentos, reflexões, acerca do diagnóstico e tratamentos.
· Auxiliar nas tomadas de decisão conscientes, informadas, consistentes durante todo o processo em tratamentos e sua saúde reprodutiva.
· Recomendar que o apoio emocional é importante, integrativo e previne o risco de abandono do casal aos tratamentos PMA.
(A autora não escreve segundo o Acordo Autográfico)