27 Jan. 2026
É possível e saudável emagrecer ou ganhar peso na procriação medicamente assistida?
Pedro Carvalho, Nutricionista
A relação entre o peso, ou mais propriamente a quantidade total de massa gorda e a fertilidade é sobejamente conhecida: Tudo o que esteja nos extremos é mau.
Por um lado, temos a desregulação hormonal, resistência à insulina, inflamação crónica (e possivelmente síndrome ovário poliquístico) associado à obesidade e respetiva disfunção ovulatória.
Por outro, mulheres com IMC abaixo de 19kg/m2 (e impacto hormonal dessa quantidade reduzida de massa gorda), podem experienciar um tempo até engravidar 4 vezes maior em comparação com uma mulher com IMC normal.
Esta relação não é válida apenas para a mulher, também o é para o homem: massa gorda em excesso tem impacto negativo na concentração, mobilidade, viabilidade e morfologia normal dos espermatozoides. Uma hiperglicemia constante tem também um impacto negativo na motilidade do espermatozoide e no processo de fertilização. Nos últimos 50 anos tem existido uma diminuição acima dos 30% na concentração de espermatozoides nos homens na Europa e que pode estar relacionada com o aumento da prevalência da obesidade e estilos de vida mais desequilibrados quer na alimentação quer na atividade física.
Falando especificamente da procriação medicamente assistida, a obesidade está associada a uma necessidade de maiores doses de gonadotrofinas para estimulação ovárica, menor proporção de embriões de boa qualidade, menor taxa de fecundação e menor proporção de transferência de embrião em estádio de blastocisto, redução do sucesso da fertilização in vitro, para além de aumento do risco de perda fetal quando a gravidez é bem-sucedida.
Um estudo que acompanhou quase 50 mil ciclos de estimulação ovárica em mais de 30 mil mulheres, durante 6 anos, em Espanha, observou que quanto maior o IMC, maior o número de oócitos, embriões e transferência de embriões para atingir um nado vivo.
Outro estudo recente com quase 15 mil ciclos de fertilização in vitro/injeção intracitoplasmática de espermatozoides, observou que em mulheres com excesso de peso e obesidade, as taxas cumulativas de nados vivos eram bastante menores. Esta trabalho, também colocou o fator “idade” na equação, referindo que quanto mais velhas (acima dos 35 anos sobretudo), o preço da espera pelo emagrecimento antes do início dos tratamentos de procriação medicamente assistida pode ser demasiado elevado, sendo fundamental que este emagrecimento seja feito de forma rápida. A este nível, a introdução dos agonistas de GLP-1 poderá ser considerado (não existindo ainda tempo suficiente para a produção de muita evidência neste tópico), dado que podem chegar a perdas de peso até 20% em 1 ano e aliviar o hiperandogrenismo, irregularidades menstruais e anovulação associada à obesidade, e também nos homens reverter a hipotestosteronemia causada pela diabetes tipo II e pela obesidade.
Como tal, quer o aumento quer a diminuição do peso de ambos os elementos do casal, conforme a necessidade (tendo em conta o IMC de ambos), mais do que útil, é uma necessidade e um preditor do sucesso da procriação medicamente assistida.
Se já faz parte do senso comum que uma dieta equilibrada com abundância de fruta e legumes com potencial antioxidante, maior presença de proteína vegetal em vez de animal (mais leguminosas e menos carnes vermelhas), troca de gorduras saturadas por insaturadas (menos enchidos e manteiga e mais azeite e frutos gordos), redução de alimentos açucarados e álcool tem um efeito positivo na fertilidade, também é verdade que num momento de grande ansiedade e instabilidade emocional (como acontece antes destes tratamentos), apetece fazer tudo ao contrário! E é precisamente por isso que vale sempre a pena reforçar que o maior determinante do emagrecimento é a restrição calórica. É mais do possível (e desejável) perder peso, mantendo pequenos guilty pleasures que dão cor ao dia alimentar. Torrada com manteiga, cereais de chocolate, chocolate no final do almoço/jantar, refrigerantes light a acompanhar a refeição, refeições “livres” em contexto social, compensando essas calorias mais à frente, são tudo exemplos destes pequenos prazeres dos quais se pode e deve usufruir para tentar manter o equilíbrio emocional quando se tenta perder o peso possível antes de nova tentativa.
Consulte um nutricionista que antes de perceber de guidelines, perceba de pessoas e estará sempre mais próxima de um plano alimentar que realmente se adequa si.