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16 Out. 2026

Nutrição e Saúde mental na (in)fertilidade: quando o intestino também comunica com o cérebro

Oureana Ferreira, Nutricionista, Clínica Digital Cátia Santos e Comunidade ENRAIZA

A infertilidade é muito mais do que um desafio reprodutivo. Para muitos casais, representa um percurso marcado por ansiedade, sintomas depressivos, stress crónico e isolamento social. A carga emocional tende a oscilar ao longo das diferentes etapas do tratamento de reprodução medicamente assistida: a estimulação ovárica, a punção folicular, a espera pelos resultados, os testes negativos, as perdas gestacionais ou até os encontros sociais repletos de perguntas difíceis de responder. 

Embora o acompanhamento psicológico e psiquiátrico seja essencial para muitas pessoas, a evidência científica mostra que também a Nutrição desempenha um papel complementar na promoção do bem-estar. Não porque substitua estas intervenções, mas porque influencia mecanismos biológicos envolvidos na resposta ao stress, nomeadamente através do eixo cérebro-intestino-microbiota. 

Hoje sabemos que o cérebro e o intestino comunicam continuamente através do nervo vago, do sistema imunitário, de hormonas e de moléculas produzidas pela microbiota intestinal. Esta comunidade de biliões de microrganismos participa na regulação da inflamação, da permeabilidade intestinal e da produção de compostos – metabolitos -capazes de influenciar o funcionamento cerebral. 

Entre estes “metabolitos”, destacam-se os ácidos gordos de cadeia curta — acetato, propionato e butirato — produzidos pela fermentação das fibras alimentares. Estes compostos ajudam a reforçar a barreira intestinal, modulam a resposta inflamatória e parecem exercer efeitos benéficos na comunicação intestino-cérebro. Paralelamente, a microbiota participa na modulação de neurotransmissores como a serotonina, o GABA, a dopamina e a acetilcolina. Cerca de 90% da serotonina, conhecida como “hormona da felicidade” é produzida no intestino, a partir do aminoácido triptofano, obtido pela dieta. 

A relação funciona nos dois sentidos. O stress psicológico também altera a microbiota, reduzindo a sua diversidade, aumentando a permeabilidade intestinal e favorecendo um estado pró-inflamatório. Este ciclo pode perpetuar alterações gastrointestinais, amplificar a resposta ao stress e contribuir para sintomas de ansiedade e depressão. 

É neste contexto que a alimentação ganha relevância. A dieta é um dos principais determinantes da composição e da função da microbiota intestinal. Em Portugal, um estudo observou que padrões alimentares menos saudáveis — caracterizados por baixo consumo de hortofrutícolas, hidratação inadequada e maior ingestão de carne vermelha — se associavam a mais sintomas depressivos. Em sentido oposto, a Dieta Mediterrânica – caracterizada pelo elevado consumo de alimentos de origem vegetal, sazonais e locais, pelo azeite como principal fonte de gordura e por um reduzido consumo alimentos ultraprocessados e carne vermelha – tem sido consistentemente associada a menor risco de depressão, menor inflamação, maior diversidade microbiana, e, em alguns estudos, a melhores resultados em técnicas de procriação medicamente assistida. 

Além do padrão alimentar, importa garantir um aporte adequado de nutrientes essenciais para o cérebro e para a função reprodutiva, como folato, vitamina D, vitamina B12, colina, ferro, zinco, selénio, magnésio e ácidos gordos ómega-3. A fibra alimentar merece igualmente destaque, por constituir o principal substrato para as bactérias produtoras de butirato. Os probióticos poderão beneficiar grupos específicos, embora a evidência na infertilidade e na saúde mental continue a evoluir e ainda não permita recomendações universais. 

Também o comportamento alimentar se modifica frequentemente durante períodos de maior sofrimento emocional. O aumento do consumo de alimentos ultraprocessados e ricos em açúcares, refeições irregulares e menor ingestão de alimentos de origem vegetal pode agravar a inflamação, e consequentemente, neuroinflamação, comprometer a microbiota, favorecer alterações metabólicas e contribuir para um pior bem-estar físico e psicológico. Outras pessoas podem experienciar uma redução do seu consumo alimentar em resposta a emoções negativas, predispondo a défices nutricionais, com impacto no sistema endócrino e fertilidade. 

O nutricionista não trata a ansiedade nem a depressão. Contudo, pode integrar uma equipa multidisciplinar, ajudando a otimizar a ingestão de nutrientes essenciais, promover uma microbiota mais saudável, reduzir fatores inflamatórios associados à alimentação, melhorar sintomas gastrointestinais frequentemente agravados pelo stress e apoiar a construção de uma relação mais equilibrada com a comida durante um período particularmente desafiante. 

Num percurso em que muito escapa ao controlo do casal, a alimentação não elimina a incerteza nem substitui o apoio psicológico ou psiquiátrico. Mas pode constituir uma forma concreta de cuidar do organismo, favorecendo um ambiente biológico mais propício ao bem-estar e, potencialmente, à fertilidade. 

Mensagens-chave: 

  • A infertilidade e os tratamentos de reprodução medicamente assistida são uma fonte importante de stress, ansiedade e sintomas depressivos. 
  • As doenças psiquiátricas não se explicam apenas pelo que acontece no cérebro, interagindo e sendo influenciadas a nível sistémico. 
  • O eixo cérebro-intestino-microbiota constitui um mecanismo biológico plausível através do qual a alimentação pode influenciar a saúde mental. 
  • Uma alimentação adequada pode ser um complemento ao acompanhamento psicológico e psiquiátrico, assim como na otimização da fertilidade feminina e masculina. 
  • Cuidar da saúde mental exige uma abordagem multidisciplinar, na qual a Nutrição tem o seu lugar. 

Fontes: 

– Rutsch A. et al.; The Gut-Brain Axis: How Microbiota and Host Inflammasome Influence Brain Physiology and Pathology, 2020 

 – Ping Z. et al.; Influence of Foods and Nutrition on the Gut Microbiome and Implications for intestinal health, 2022 

 – Charneca e Guerreiro; Saúde mental em perspetiva, 2021 

 – Laura Martin-Manchado et al.; Associations between adherence to a Mediterranean diet and assisted reproductive techniques outcomes: a systematic review, 2025 

 – Hugo G Winter et al.; Can dietary patterns impact fertility outcomes? A systematic review and meta-analysis, 2023

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